PRESENTE

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Comecei a semana atrasado.
De novo.

Saí correndo de casa sem nem pegar os fones de ouvido, o que por si só já mostrava o nível do desespero. E, como se o universo estivesse particularmente irritado comigo naquela manhã, começou a chover no meio do caminho. Quando cheguei na escola, estava completamente ensopado.

Cabelo grudado na testa. Tênis molhado.
Frio. Humilhação pública.

Perfeito.

As pessoas olhavam mais do que o normal enquanto eu atravessava o corredor tentando fingir que não existia. No intervalo, Lucas começou a rir assim que me viu.

— Você tá parecendo personagem de clipe triste dos anos 2000.

— Obrigado pelo carinho.

— Quer minha blusa?

— Não.

— Tá tremendo.

— Continuo não querendo.

Ele tirou o moletom mesmo assim e jogou no meu colo.

— Usa logo antes que pegue pneumonia.

Acabei vestindo. O moletom dele tinha cheiro de amaciante e alguma coisa muito específica que lembrava o próprio Lucas. Isso me deixou desconfortavelmente consciente da presença dele o resto do intervalo inteiro.

Estávamos conversando sobre as provas das universidades quando percebemos uma movimentação estranha no pátio. Inspetores carregando caixas de som. Microfone.
Professores cochichando.

A diretora apareceu alguns minutos depois.

— Bom dia, alunos.

O barulho foi diminuindo aos poucos.

— É sempre um orgulho quando estudantes da nossa escola conseguem alcançar oportunidades importantes...

Lucas me olhou desconfiado.

Eu também comecei a desconfiar.

— Hoje recebemos a confirmação de que um dos nossos alunos foi aprovado para a próxima etapa do processo seletivo de Artes Visuais em uma universidade pública.

Lucas congelou.

— Ah, não... — ele murmurou.

— Vamos dar os parabéns ao aluno Lucas Alcântara, do terceiro ano A.

O pátio inteiro explodiu em aplausos.

Lucas ficou completamente pálido.

— Eu vou matar meus pais.

Comecei a rir enquanto ele caminhava até a diretora sob o olhar da escola inteira.

Ela o abraçou, entregou o microfone e Lucas claramente percebeu tarde demais que teria que falar alguma coisa.

— Ah... obrigado... — ele começou nervoso. — A prova ainda é daqui cinco dias, então talvez vocês estejam comemorando cedo demais...

Algumas pessoas riram.

Então ele olhou diretamente pra mim.

Meu estômago gelou imediatamente.

— Mas eu não sou o único daqui que vai prestar uma prova importante.

Não.

Não.

Não faz isso.

Ele fez um sinal com a cabeça.

— Vem aqui.

O pátio inteiro virou pra trás procurando quem ele estava chamando.

Meu corpo inteiro entrou em estado de pânico.

Meu Melhor Amigo GayHistórias para pegar e não largar. Descubra agora