RIO DE JANEIRO

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A morte de Josef ainda rondava meus pensamentos como uma sombra difícil de afastar. Mesmo tentando focar no filme, em São Paulo, na faculdade, em Gabriel... alguma parte de mim ainda estava parada naquele telefonema da minha mãe. Talvez porque a morte tivesse esse poder cruel de nos lembrar que tudo pode acabar sem aviso.

Mas eu precisava seguir.

Precisava me entregar ao personagem.

Precisava emagrecer.

Precisava me preparar.

Gabriel decidiu fazer tudo comigo. Disse que seria mais fácil se nós dois enfrentássemos aquilo juntos. Então cortamos besteiras, começamos a correr pela manhã, beber mais água, dormir melhor. Em poucas semanas, eu já tinha perdido cinco quilos.

Os ensaios eram intensos.

No primeiro laboratório, nós três — eu, Gabriel e Milena — ficamos em silêncio, sentados em círculo, apenas respirando e nos encarando. Parecia estranho no começo, mas depois entendi que aquilo fazia parte do processo. O preparador queria que a gente se despisse emocionalmente antes de vestir qualquer personagem.

Milena já estava mergulhada na preparação para interpretar uma garota cega. Gabriel havia raspado parte do cabelo. E eu começava a perceber o quanto aquele filme mudaria nossas vidas.

Durante duas semanas, a produção praticamente respirava em cima da gente. Danilo cobrava concentração. Bruno corrigia postura, voz, presença. Jeferson aparecia do nada com páginas novas do roteiro e ideias melhores ainda.

E sinceramente?

Aquilo era maravilhoso.

Então veio o jantar.

Jeferson resolveu reunir elenco, patrocinadores, produtores e parte da equipe técnica na casa dele. Segundo ele, era importante "aproximar quem acreditava no projeto".

A casa era absurda de linda.

Mas o pior foi chegar lá.

Assim que o táxi parou em frente ao portão, flashes começaram a explodir na nossa direção. Fotógrafos. Gente fazendo perguntas. Pessoas chamando nossos nomes.

Meu coração disparou.

Eu nunca tinha vivido algo assim.

Milena segurou meu braço.

— Meu Deus... isso tá acontecendo mesmo?

Gabriel ria nervoso do meu lado.

Seguranças vieram nos ajudar a entrar enquanto os fotógrafos continuavam gritando perguntas sobre o filme.

Quando chegamos na área principal da casa, havia várias mesas espalhadas pelo jardim iluminado. Tudo parecia cenário de cinema. Bruno veio nos receber e mostrou onde sentaríamos.

Ficamos na mesa principal.

Diretor.

Roteirista.

Patrocinadores.

Elenco.

Era surreal demais.

Horas depois, no meio do jantar, fui ao banheiro sozinho. Parei diante do espelho e fiquei me olhando por alguns segundos.

Talvez pela primeira vez na vida eu tivesse gostado da pessoa que via ali.

Meu rosto estava diferente.

Meu corpo também.

Mas não era só isso.

Eu parecia... adulto.

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