Capítulo 32

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É claro que não reagi de imediato. Eu mal piscava na velocidade normal, que dirá mexer minhas pernas para dar-lhe espaço. Depois de alguns segundos de espera, Zeno deixou-se caminhar para dentro de casa, não perdendo tempo em olhar ao redor para ver se havia algum resquício de eu estar sentindo a sua falta. Que bom, caso contrário, eu seria pega no flagra.

Sentou-se no sofá, o mesmo que passamos várias noites juntos bebendo. Esperou que eu fechasse a porta e caminhasse até ele, hesitante e ansiosa. Eu estava nervosa. Sem perceber, prendia minha respiração de tempo em tempo, soltando o ar silenciosamente toda vez que sentia meus pulmões reclamarem; até meu coração pulsava enlouquecidamente, mas sem fazer nenhum barulho. Todo meu corpo sabia como reagir a Zeno e à situação na qual nos encontrávamos.

- Você fugiu? – perguntei, olhando para seu braço repleto de adesivos que até mais cedo seguravam as agulhas cujos drenos ligavam a soros medicinais. – Alguém sabe que você está aqui?

- Ninguém precisa saber de nada sobre mim. – ele disse, sério. Pude entender a sobriedade na tonalidade de sua voz; compreendi que ele estava raciocinando, pensando nas palavras que deveria falar, nas reações que queria tirar de mim. Meu corpo tencionou-se com a expectativa de fazer um movimento em direção errada, por isso, me sentei na poltrona próxima ao sofá, para que ele pudesse me encarar e eu a ele sem precisar nos contorcer ou decifrar lado a lado, qual expressão nossos rostos carregam. Zeno me encarou; vi os dedos de sua mão se mexerem, um ato comum em uma pessoa sóbria que passa por uma situação de nervosismo. Mesmo assim, ele trouxe de volta a mesma serenidade na voz que sempre usou, mas em um sotaque menos arrastado. – Eu estou aonde devo estar.

- Você precisa receber alta para vir aqui. – balancei a cabeça, tentando distrair meu corpo do êxtase que estava sentindo em tê-lo tão próximo. – E para isso os exames...

- Os exames darão o resultado de sempre. – ele me cortou – Todos irão pensar a mesma coisa. Que estou atordoado. Chocado com a nova realidade. Incompreensível. Incomunicável.

- É por isso que não responde o que eles perguntam? – o acusei, vendo-o sequer engolir seco, significando que sabia exatamente o que estava fazendo. – Zeno, se você não mostrar que está bem...

- E quem é que conhece o meu bem para saber que estou, de fato, "bem"?

Não soube responder. Diferente do Zeno de antes, este tinha sempre a resposta na ponta da língua. Foi como se sua intelectualidade tivesse retornado à mente.

- Se você não seguir o que eles dizem, os problemas não serão resolvidos, Zeno.

- O único problema que eu quero resolver, é este pendente que tenho com você.

Talvez fosse a seriedade que sua voz exalava. Ou o olhar que me obrigava a calar e ouvir o que ele tinha a dizer. Eu estava curiosa para saber o que viria em seguida, ao mesmo tempo que me preocupava em tê-lo ali sem a permissão de alguém. E se ele não estivesse bem o suficiente para sair na rua? Como chegou até aqui, já que moro tão longe do hospital?

- Por que você mentiu? – ergui minha bandeira branca de rendição para tirar tudo a limpo. Eu não tinha razões para achar que ele estava normal, mas tinha a sensação de que se havia um momento para ouvir a verdade dele, seria agora. – Por que você me disse que havia se curado, quando ainda estava sob o efeito?

- Porque eu ainda não sabia se era você. – ele respondeu. Enviei-lhe um olhar de quem não havia entendido a resposta e ele respirou fundo, fechando seus olhos para enfim explicar: - Toda mulher me deixaria ir para a reabilitação, se eu dissesse que iria por ela. Quando me interessei por você, sabia que você era diferente das outras. Que você trazia consigo uma aura que eu nunca havia sentido antes. Eu sou um ser naturalmente curioso. Eu gosto de brincar com o ser humano. Você não os acha fascinante? Como são fáceis de serem manipulados, se lhes dá o que querem?

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