Capítulo 4

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Na verdade, eu não sabia como reagir. Zeno estava com um comportamento normal, como se fosse natural uma pessoa que conheceu há pouco tempo se declarar para você. Comemos calados com ele fazendo alguns comentários sobre como o gosto estava bom ou o amendoim ainda crocante. Na sobremesa, os biscoitos da sorte me disseram que eu estava prestes a vivenciar uma nova etapa da vida. De fato, nunca havia me sentido tão imponente em frente a uma declaração.

- Não consigo te decifrar. - ele comenta entre uma mastigada e outra do biscoito, seus olhos fixos em meus movimentos. - Em alguns momentos parece confusa e outras sem graça, mas não há resquício de alegria nesse rosto. - apontou para mim.

- É porque eu estou confusa E sem graça. Você passou o mês passado escrevendo ela?

- Foi. Eu disse que poderia fazer uma música com seu nome.

- Uma música de amor?

- Uma música da realidade. - ele espreguiçou seu corpo não tão magro, não tão forte e ainda assim sexy, e então soltou o ar. - Essa foi a primeira vez.

- Primeira... O que você viu em mim? - perguntei, esperando por sua declaração. Zeno não disse nada. Olhou em meus olhos, como se tentasse descobrir o que eu queria ouvir. Nem eu sabia o que queria ouvir.

- Eu vi uma garota bondosa que possui olhos açucarados. Você não olhou para mim como o cara da Dukhan. Foi a primeira vez em três anos de carreira. Depois de assistirmos o nascer do sol pela primeira vez, me perguntei como seria encontrá-la uma segunda vez. O tempo havia passado mais rápido do que senti minha vida inteira passar. É normal você querer encontrar uma pessoa que te fez sentir o que esteve procurando nos últimos anos. Então veio o segundo encontro e você continuou se dando o valor antes de me dar o valor. Eu gostei.

- Você não me conhece direito para saber que sou o que estava procurando.

- Eu acho que conheço, sim. Você sabe, não é porque não nos vimos mais do que duas vezes que não podemos nos conhecer bem. Tenho milhares de fãs que bastou me verem uma única vez para decidirem oferecer suas almas em troca de um sorriso meu. Se aconteceu com elas, por que não pode acontecer comigo?

- Porque não é real, nem verdadeiro.

- E quem é você para julgar a autenticidade do sentimento dos outros?

Me calei. Isso era uma verdade. Eu não sabia qual era a intensidade de seus sentimentos, a ponto de escrever uma música para mim, mas penso que ninguém conseguiria se dedicar tanto a outra pessoa só porque pensa demais nela.

- Então você é do tipo que só acredita comprovando. - ele comentou. - Eu podia imaginar, por isso, vim preparado.

- Preparado para quê?

- Para provar para você que estou falando sério.

- Como você faria isso? - abri um pequeno sorriso e o vi suspirar e retirar um panfleto do bolso da jaqueta. Olhei para o papel pouco amassado em cima da mesa e desfiz o sorriso ao ver seu conteúdo.

- Eu sei que você não gosta de pessoas como eu porque somos controlados pelo vício. É por isso que estou disposto a sair dessa e tentar novamente com você. Falaram que é um processo demorado e doloroso, mas eu terei tempo, já que o novo álbum demorará um pouco para sair. E você poderá estar ao meu lado nos momentos de dor.

Não respondi nada. Permaneci calada encarando o panfleto do centro de reabilitação para dependentes. Sei que não é uma decisão fácil de ser tomada, a de deixar-se ser levado a um lugar para acabar com seus vícios. Eu não sei o que seria de mim se eu tivesse de parar de comer sorvete todos os dias. Só de imaginar meu corpo começa a pedir por mais. Apesar de serem questões diferentes, o vício é o mesmo.

Chain ReactionOnde histórias criam vida. Descubra agora