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Com muito medo peguei um caderno velho e fui, mas não achei nenhuma caneta. Quando me viram chegar, a escola inteira me olhou, e havia uma espécie de perplexidade em todos. Nesse dia não vi o Chicão. Mas os outros que me bateram tiraram a maior onda. Tive de aguentar.

Fui pra sala de aula. Sentei no fundo e não consegui prestar atenção a nenhuma palavra sequer. Mas por dentro eu me corroía! Pensava em mil coisas : em ir embora, mas para onde? Em pegar um por um dos caras, e em como fazer para voltar a ser quem eu era. Eu era um mico.

*

Numa segunda-feira, havia um alvoroço na escola. Todos falavam alto e ao mesmo tempo. Consegui chegar numa menina e perguntar o que estava acontecendo. Ela contou, falando rápido e como se fosse a descoberta do século.

-O Chicão foi preso na noite do domingo. Ele foi perseguido com uma moto roubada, depois que assaltou uma padaria no centro da cidade. Trocou tiros com a polícia, mas não teve jeito. - Ele já tinha dezoito anos e agora tava ferrado. Ainda por cima estava armado. Mais um havia caído.

Aquela notícia me trouxe de volta. Pensei que os eram capachos do Chicão e então o caminho estaria livre novamente. Era só encarar um por um e eu voltaria a ser quem eu era. Comecei a puxar papo com todo mundo de novo. Foi assim que voltei a me aproximar da turma novamente.

Um dia, vi o cara que começou a briga no bar. Aquela em que levei a surra que me quebrou inteiro. Ele estava chapadaço e, então, pensei : é hoje! E foi! Na rua, na frente de todos, eu o encarei.

-E aí Salsicha? Como é que vai o Chinelão? Você só é bom na cola dos outros. Quer encarar ou vai cair fora? - foi o suficiente. Brigamos só nós dois, na frente de todos, e eu bati nele com vontade, desci a lenha. Ninguém interferiu. Machuquei-o bastante. No final, falei que não seria pior porque eu não queria encrenca com a polícia, senão ele iria vestir o paletó de madeira.

Com essa briga consegui reunir alguns e agora tínhamos dois grupos rivais na escola. Mas eu nunca mais andava sozinho. Meus novos quatro amigos e eu sempre estávamos juntos. Pode ser que para os outros parecesse força, mas para mim era medo mesmo. O medo me acompanhava. Dormia mal, estava sempre cuidando se havia alguém me olhando, era um inferno.

*

Leka era uma menina linda, daquelas feitas a pincel. Ela teve um paquera, dois, talvez. Era, quem sabe, a mais cobiçada, filé mesmo, mas não era para meu bico. Mas eu apostei com meus novos amigos que ficaria com ela. Então comecei a investir, e ela não me dava a mínima. Entretanto eu tinha garantido, seria um novo troféu para confirmar meu pretenso poder. Fiz de tudo que se possa imaginar. Até o dia em que ela me encarou com a maior tranquilidade e eu, tremendo. Chamou-me e disse para eu sentar a seu lado. Pegou na minha mão, olhou-me fundo nos olhos e falou com a voz mais doce desse planeta.

-Cara, quando você vai deixar de ser mala? Você só pensa errado, só faz coisas erradas, não dá para ficar com você desse jeito! Essa de ser galinha denuncia que você não sabe nada de amor. Você assusta as pessoas, e isso é péssimo. Cara, para de se boicotar. A vida não é nada disso, você acha que vai conseguir viver quanto tempo? Você faz as coisas de um jeito que não há como gostar de você! Abra os olhos! Você tem um bom potencial, mas desse jeito não tem como oferecer nada a ninguém, não de coisas materiais, mas estabilidade, enquanto pessoa. Você não se entrega a ninguém, desconfia de tudo, não acredita em nada. Deixe de ser tosco! - Disse ainda que meus relacionamentos eram superficiais e fugazes, e que, a menos que fosse alguém completamente fora de si, não ficaria comigo. Acrescentou que era uma pena eu estar desperdiçando minha perspicácia em um mundo tão pequeno e sem futuro, e que a vida oferece bem mais do que eu estava conseguindo enxergar.

ToscoOnde histórias criam vida. Descubra agora