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"Prazer em conhecê-la

Eu tenho amor para te dar"  

Nice To Meet Ya - Niall Horan

O som da música pulsa no peito, misturado aos gritos e risadas que ecoam pelo salão reservado para a comemoração. Ainda sinto o calor da torcida no corpo, como se o estádio estivesse aqui dentro, junto com o cheiro de cerveja e perfume caro.

Hoje foi um dia inexplicável, porque meu gol nos levou para a semifinal do campeonato. Eu estaria exausto, se a adrenalina não mantivesse os músculos elétricos. Meus companheiros de time circulam pelo salão, alguns já meio cambaleantes, outros dançando em cima de sofás. Eu fico perto do bar, observando tudo. É estranho como, depois de um jogo assim, todo mundo ainda consegue se divertir.

E enquanto estou bebendo uns goles da minha cerveja, eu vejo ela.

No meio do vai e vem de pessoas, surge uma figura que não reconheço de nenhuma festa anterior. Alta, postura confiante, usando jeans e uma camisa marrom sobre uma blusa branca. O cabelo ruivo preso em um coque frouxo, revela um pescoço delicado, e os olhos... é difícil explicar. Não são só bonitos — têm algo de atento, como se analisassem tudo.

Ela sorri para alguém que passa, mas continua andando até o balcão do bar. E, por um instante, nossos olhares se cruzam. Não é daqueles encontros de filme em câmera lenta — é rápido, mas o suficiente.

— Você não parece estar se divertindo — Eu comento.

— Noite agitada — a voz dela é baixa, mas clara, com um leve sotaque que não consigo identificar de primeira. — E você é Marco Reus. Capitão, herói da noite.

Ela ri, de um jeito que não é exagerado. Parece que ri mais dos meus modos do que da minha frase.

— E você é...? — deixo a pergunta no ar.

— Alice. — Ela estende a mão, e eu aperto. A pele é fria, mas o toque firme. — Acabei de chegar de Moscou.

— Moscou? — arqueio a sobrancelha. — O que veio fazer em Dortmund?

— Trabalho.

A conversa desliza fácil. Entre taças de cervejas, falamos sobre o clima absurdo da Alemanha, sobre como a cidade parece diferente depois de uma vitória e também do hábito de tomar cerveja quente. Ela não é do tipo que se impressiona só porque estou no time — e isso é refrescante. Mas, vez ou outra, o joelho dela tocando o meu de propósito. Ou a mão roça a minha quando ela pega o copo.

— Sabe... — ela comenta, já perto de meia-noite — você não parece do tipo que gosta de festa.

— E você parece do tipo que gosta de observar mais do que participar.

O sorriso dela confirma que acertei. No meio da conversa, um colega me chama para brindar, e quando volto, Alice já não está no mesmo lugar. Não trocamos números, não combinamos nada. Só ficou um gosto de algo que começou e foi embora rápido demais.

O hino nacional ainda ecoa na minha cabeça quando a bola rola. O estádio está lotado, uma mancha viva de bandeiras pretas, vermelhas e douradas. O jogo pela seleção é diferente, porque o peso da camisa é outro. Hoje é as quartas de final da Eurocopa e a Alemanha inteira espera que a gente avance.

A grama está molhada da chuva fina que caiu antes do apito inicial. Sinto a energia pulsando pelas chuteiras. O passe vem de Kroos, e eu já giro o corpo para avançar pela ponta esquerda. Meu coração bate no ritmo da arquibancada.

No primeiro tempo, tudo flui. Dou uma assistência, quase marco de cabeça. Sinto o jogo nas mãos. Mas, no segundo tempo, aos 68 minutos, tudo muda.

A jogada começa rápido: recebo a bola no meio, driblo um adversário, e quando acelero para escapar, sinto o toque duro por trás. É uma fração de segundo — a chuteira trava no gramado, o tornozelo gira de um jeito que não devia.

O estalo é alto o bastante para eu ouvir por dentro.

A dor explode, quente e cortante, me arrancando o ar. Meu corpo despenca no gramado, e o som do estádio vira um borrão distante. Tento me levantar, mas o pé não responde. Tudo o que consigo é apertá-lo com as mãos, como se isso fosse impedir a sensação da dor insuportável.

Os médicos correm até mim. Sinto mãos me segurando, vozes dizendo para não mexer. O árbitro afasta os outros jogadores. Eu só penso: não agora. Não quando estamos tão perto.

A maca chega. Os aplausos me acompanham até a linha de fundo. Aperto o lenço de gelo contra o tornozelo esquerdo como se pudesse apagar o calor da dor que lateja ali, profunda e insistente. O nó na garganta cresce, pesado. Pela primeira vez em muito tempo, não penso no próximo jogo, no treino de amanhã, no que posso fazer melhor. Só penso no vazio que começa a se abrir na minha frente.

No túnel para o vestiário, o som da torcida desaparece como se alguém tivesse abaixado o volume do mundo. Fica só o eco dos meus próprios passos e o zumbido grave da dor. É como caminhar para um lugar onde não quero chegar.

No banco, o médico segura meu pé com firmeza e começa a testar movimentos. O toque é preciso, mas cada tentativa me arranca um suspiro travado. Sinto a instabilidade, a fraqueza. Não é uma dor qualquer, mas avisa que algo sério aconteceu.

Ele troca um olhar rápido com o fisioterapeuta e, mesmo sem dizer nada, já entendo. Minutos depois, vem o diagnóstico preliminar: ruptura parcial dos ligamentos do tornozelo esquerdo. O tempo de recuperação vai depender dos exames, mas a Copa... essa já ficou para trás.

IMPEDIMENTO [COMPLETO]Onde histórias criam vida. Descubra agora