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"Seus olhos e palavras são tão frios"

Cherry Wine - Hozier

O cheiro familiar do CT me atinge assim que passo pela porta. Mistura de café forte, grama recém-cortada e pomada de fisioterapia. Faz semanas que não sinto esse ambiente, e agora volto como paciente — coisa que nunca gosto de ser.

Mats está sentado em uma das poltronas da sala de descanso, folheando uma revista esportiva qualquer. Ao me ver mancando um pouco, ele levanta as sobrancelhas.

— Olha só quem resolveu aparecer. — O sorriso é meio provocador. — Como está o tornozelo?

— Melhor do que na Euro, mas pior do que eu queria — respondo, me jogando no sofá ao lado dele.

Julian entra logo atrás, com um copo de shake na mão.

— O médico já falou alguma coisa sobre o tempo de recuperação?

— Hoje faço a última consulta completa aqui, estou ansioso para ser liberado.

Enquanto conversamos, ouço passos e vozes no corredor. Julian se inclina para frente, como se lembrasse de algo.

— Ah, a propósito... você vai conhecer gente nova no departamento médico. Contrataram mais profissionais pro suporte da temporada.

— Mais fisioterapeutas? — pergunto.

— Não só isso. — Ele dá um gole no shake. — Acho que trouxeram uma psicóloga também. Falaram que ela vai acompanhar o time em campo e fora dele.

— Finalmente alguém pra lidar com a tua teimosia, Marco.

— Engraçado — retruco, embora a curiosidade já tenha sido despertada.

Fico imaginando que tipo de pessoa aceita entrar no meio da pressão e das lesões que rondam esse clube. Mas não penso muito além disso — pelo menos, não ainda.

O médico aparece na porta, chamando meu nome no horário marcado da consulta. Levanto, ajeito a muleta de apoio e sigo pelo corredor. A cada passo, o cheiro de pomada e álcool em gel fica mais forte. Não sei o que esperar.

— Boas notícias, Marco — o médico diz quando pega os exames que eu trouxe. — Pode sair do repouso absoluto. Vamos começar com fisioterapia leve, três vezes por semana.

— E quanto tempo até voltar a treinar?

— Vai depender da resposta do seu corpo. Também quero que você faça sessões com a nova psicóloga do clube. Lesões mexem com o físico e a cabeça, e quero que trabalhemos as duas coisas juntas.

— Psicóloga?

— Sim. Ela começou esta semana. Vou deixar o encaminhamento.

Pego o papel, guardo na mochila e saio da sala. Não penso muito sobre isso — até porque, no momento, minha cabeça está na fisioterapia e em sair dessa situação o mais rápido possível.

Alguns passos mancos depois de sair da sala, quase bato de frente com alguém no corredor.

— Desculpa... — começo a falar, e só então registro o rosto.

Os cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo baixo, a pele clara, os olhos verdes que parecem guardar uma história inteira. Reconheço na hora, mesmo que ela esteja de calça social preta e camisa branca com o logo do clube bordado no peito.

Por um segundo, é como se a música da festa voltasse a tocar no fundo da minha cabeça. Ela sorri, mas não é o mesmo sorriso descontraído daquela noite — agora é mais contido, profissional.

— Marco Reus — ela diz, como quem confirma uma ficha mental. — Não achei que fosse te ver tão cedo.

— E eu não achei que fosse te ver... aqui. — Olho de relance para o crachá pendurado no pescoço dela. — Psicóloga do clube?

— Comecei esta semana. — Ela mantém o tom calmo, mas os olhos ainda carregam aquele brilho que me confundiu na festa. — Vi que você está na minha lista de encaminhamentos.

— É... o médico comentou. — Dou um meio sorriso, mais por educação. — Mas não se preocupe, não vou precisar disso.

Ela cruza os braços, inclinando levemente a cabeça. Parece que está me analisando agora mesmo e eu odeio isso.

— Não é bem assim que funciona.

— Eu me viro. Sempre me virei. — Dou um passo para o lado, pronto para continuar andando.

— Às vezes, até quem se vira precisa de alguém para ouvir — ela diz, mas não tenta me parar.

Continuo pelo corredor, sentindo o peso do olhar dela nas minhas costas. Não sei se é a lembrança da festa ou a insistência implícita na voz dela, mas algo me diz que essa conversa ainda está longe de acabar.

Do CT, sigo direto para casa no táxi, porque ainda não estou liberado para dirigir. O caminho é curto, mas a cidade parece mais cinza do que de costume. Assim que abro a porta, ouço o som familiar de unhas pequenas batendo no piso de madeira.

— Ei, Sparrow. — Me abaixo o quanto o tornozelo permite e sou imediatamente atacado por lambidas no rosto. O vira-lata, com orelhas grandes e pelo amarelado, abana o rabo como se eu tivesse ficado fora por meses. — Também senti sua falta, parceiro.

Ele me segue até a cozinha, onde encontro Greta, minha cozinheira, mexendo algo em uma panela. O cheiro é de sopa caseira, com aquele tempero que lembra infância.

— Como foi no clube? — ela pergunta, sem parar de mexer.

— Médico liberou do repouso. Começo a fisioterapia amanhã... e aparentemente tenho que falar com uma psicóloga também.

Greta me lança um olhar rápido por cima dos óculos.

— E qual o problema disso?

— Nenhum. Só não acho que precise.

— Geralmente, quem mais precisa é quem diz isso.

Ela sorri de canto, voltando para a panela. Não respondo, só puxo uma cadeira e deixo Sparrow deitar aos meus pés, enquanto o cheiro da sopa enche a cozinha. Pela primeira vez no dia, o silêncio não me incomoda tanto — mas a imagem de Alice, parada no corredor do CT, insiste em voltar à minha memória e incomodar toda a minha noite.

IMPEDIMENTO [COMPLETO]Onde histórias criam vida. Descubra agora