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"Minha vida, minha vida seria péssima, nada

Voando sozinha sem você-ooh, você-ooh"

Flying Solo - Julie And The Phantoms (Netflix)

POV ALICE

O som do telefone rompe o silêncio do apartamento assim que coloco os pés pare dentro de casa. O nome dos meus pais aparece na tela, um lembrete instantâneo de que prometi ligar novamente quando possível e até agora não tive muito tempo. Respiro fundo, com o coração apertado, e atendo.

— Alô? — minha voz sai um pouco trêmula, mas tento soar firme.

Do outro lado, a voz familiar da minha mãe traz conforto e uma pontada de saudade.

— Alice, minha filha! Como você está?

— Estou bem, mãe, e por aí? Como estão as coisas? — pergunto engolindo a vontade de chorar.

— Estamos bem, apesar de sentir sua falta — ela dá uma risadinha sem graça.

O aperto no meu peito aumenta. Eu também sinto falta, mas não sei como dizer isso sem parecer fraca, sem pesar nos ombros deles.

— Às vezes é difícil, sabe? Essa distância...

— Sei, querida. Mas você está fazendo o que sempre quis. Estamos orgulhosos de você.

As palavras deles são um bálsamo hoje. Não tenho me sentido bem e hoje achei que não daria conta dessa vida, mas agora falando com eles, sinto que tudo vai valer a pena.

Meu pai entra na conversa, com sua voz calma e segura:

— Querida, estamos aqui. Não importa a distância. Você sempre pode contar com a gente.

— Eu sei, pai — uma lágrima escapa, rapidamente escondida. — E isso significa muito para mim, mas tem dias que parece que o mundo aqui é tão diferente... tão estranho.

— Você já tentou fazer amigos aí? Como está o trabalho?

— Está tudo bem no trabalho. Estou me adaptando, mas às vezes me sinto... sozinha. Essa cidade é uma loucura — dou uma risadinha ainda em meio às lágrimas.

O silêncio cai por um instante, pesado, até que meu pai fala:

— Essas fases passam, Alice. Você é forte. Vai encontrar seu lugar.

— Sinto falta da nossa casa, dos nossos jantares, das conversas até tarde.

— A gente também, querida — minha mãe diz com a voz embargada. — Mas sabemos que você precisa estar aí para seguir seu sonho.

A conversa continua, com risadas tímidas, histórias do passado e planos para o futuro. A cada palavra, a distância parece diminuir, mesmo que só por um pouco.

Quando desligo, fico sentada olhando pela janela, sentindo o peso da decisão que tomei. Esse é o preço do sonho, mas também a prova da coragem que tenho.

E, apesar de tudo, sei que não estou sozinha.

No dia seguinte, estou novamente em minha sala no CT organizando alguns prontuários quando meu celular apita, avisando que é hora do almoço.

Me levanto, ajeito a cadeira e caminho até a janela. Lá fora, o sol brilha forte, convidativo para um atendimento externo. Pegando meu casaco, decido que, apesar de tudo, hoje vou tentar deixar a cabeça mais leve e talvez um pouco de ar fresco faça bem.

No caminho para a cantina, passo pela fisioterapia e vejo Marco, concentrado nos exercícios. Ele me lança um olhar breve, meio surpreso, meio desconfiado, e eu retribuo com um sorriso pequeno e um aceno com a mão. Sigo adiante, mas dentro de mim, um pensamento persiste: que, às vezes, a recuperação vai muito além do corpo.

No refeitório do CT, o burburinho das conversas preenche o espaço enquanto os jogadores vão chegando para o almoço. Carrego minha bandeja, procurando um lugar para me sentar, quando um grupo de jogadores já conhecidos se aproxima.

— Alice, aqui! — Schurrle chama, sorrindo. — Vem sentar com a gente.

Sorrio e me junto a eles, sentindo a familiaridade crescer aos poucos.

— A nova psicóloga do time — brinca Bartra, dando um tapinha no ombro do colega ao meu lado. — O que você pode fazer por gente como a gente?

— Muito mais do que só ouvir — respondo, tentando ser clara. — O trabalho é entender as pressões que vocês enfrentam, ajudar a manter o equilíbrio, a concentração e, claro, a saúde mental.

Um outro jogador dá risada:

— Tipo psicóloga de estádio, então?

— Algo assim — sorrio. — Mas o foco é vocês, o time. A mente influencia o corpo mais do que se imagina.

Eles trocam olhares e assentem, parecendo levar a sério, o que me dá um fio de esperança de que minha presença pode realmente fazer diferença.

— Se eu estiver meio estressado antes do jogo, posso falar com você? — pergunta Auba, meio tímido.

— Pode sim. Sempre que quiser. É para isso que estou aqui.

O ambiente fica mais leve, e sinto que, apesar das dificuldades, estou começando a encontrar meu lugar nesse mundo tão diferente do que deixei para trás.

Almoçamos conversando sobre mais algumas coisas da psicologia do esporte e volto a me conectar com o meu sonho da forma mais positiva possível.

Quando retorno para minha sala, noto que o celular vibrou várias vezes. Marian, minha melhor amiga, ligou mais de cinco vezes. O coração aperta com a preocupação que percebo naquelas chamadas perdidas. Respirando fundo, retorno a ligação.

— Marian? — atendo, tentando controlar a voz.

Do outro lado, a voz dela soa aflita, misturando ansiedade e carinho:

— Alice, você sumiu! Eu tava tentando falar com você desde ontem. Tudo bem?

Sinto a urgência naquelas palavras, e por um momento, penso em minimizar, dizer que está tudo sob controle. Mas a amizade verdadeira é assim: não aceita silêncios fáceis.

— Está tudo bem, Marian. Só ando meio enrolada aqui no trabalho.

— Você não parece bem, Alice. Eu sei quando alguma coisa está errada com você.

Um silêncio pesado cai entre nós. Por fim, respondo com a sinceridade que só ela merece:

— É a distância. E o peso de estar aqui, tentando fazer dar certo. Às vezes, tudo fica meio demais.

— Então tenho uma novidade para você: estou indo para Dortmund no próximo final de semana.

O ar parece faltar por um instante. Não esperava ouvir isso tão cedo, e meu coração dispara.

— Sério? — consigo responder, a voz embargada. — Você vem mesmo?

— Sim! Quero ver de perto como está sendo essa sua nova vida. Acho que está na hora de eu te dar um pouco do que você anda precisando aí.

Um sorriso involuntário escapa, misturado com a emoção e a esperança que essa visita traz. Minha melhor amiga aqui será como um elixir de carinho.

— Vai ser bom, Mari. Eu preciso disso.

— Então tá marcado! — Ela ri, do outro lado da linha, e a energia dela atravessa a distância como um abraço apertado. — Preparada para me mostrar Dortmund?

— Mais do que preparada.

Depois de algumas atualizações de fofoca sobre amigos que temos em comum, desligo o telefone sentindo que, talvez, as coisas estejam começando a se encaixar de novo.

IMPEDIMENTO [COMPLETO]Onde histórias criam vida. Descubra agora