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"Estamos acidentalmente apaixonados"

Accidentally In Love - Counting Crows


Chego ao aeroporto de Moscou com o coração apertado. O frio do fim de inverno corta minha pele, mas é o peso da saudade que realmente me faz tremer. São meses desde a última vez que vi meus pais, e cada passo que dou nesse país que me viu crescer traz uma mistura estranha de conforto e inquietação.

O trânsito intenso da cidade me lembra os dias em que minha mãe me levava à escola, reclamando do trânsito enquanto eu ficava grudada na janela, tentando decifrar o céu cinza e pesado. Chegar em casa é como voltar a um passado que, há pouco tempo, deixei para trás.

Sentada na sala de estar, o aroma familiar da sopa caseira envolve o ambiente. Meus pais estão ao meu lado, olhos cheios de cuidado e perguntas que parecem pesar mais do que deveriam.

— Alice, querida — minha mãe começa, a voz suave mas firme — como está sendo viver tão longe? Dortmund é muito diferente daqui?

— É sim, mãe. A cidade é grande, cheia de energia. O trabalho é intenso, mas estou me adaptando. — Tento sorrir, mas sinto o peso das saudades apertando o peito.

— E como está esse tal de Marco? Você parece feliz quando fala dele.

— Marco é uma boa pessoa — tento medir as palavras. — Estamos... tentando entender as coisas. Tem sido difícil, mas também bom.

— Só queremos que você seja feliz, Alice — minha mãe diz com carinho. — Que tome cuidado para não se machucar.

— Eu sei, mãe. Obrigada por se preocupar. Estou tentando cuidar de mim também.

Meu pai suspira, olhando para a janela como se procurasse respostas no céu cinzento.

— A distância não é fácil, filha. Mas se você acredita que está fazendo o certo, estaremos sempre aqui para você.

— Obrigada, pai. Vocês são meu porto seguro.

Durante a visita, as conversas são pontuadas por histórias antigas, risadas e também aquele olhar preocupado que sinto sempre que eles tentam entender meus conflitos internos. Tento explicar que estou buscando meu caminho, que estou construindo uma nova vida longe dali, mas sei que a distância é um abismo que não se fecha tão facilmente.

No quarto onde cresci, olho para as paredes cobertas de fotos e penso em como aquela garota de antes foi moldada por tudo aquilo — os sonhos, as perdas, os medos. Me sinto forte por estar ali, mas também vulnerável, porque visitar minha terra natal é revisitar partes de mim que eu nem sempre quero confrontar.

Deitada na cama, o celular vibra silenciosamente no travesseiro. É ele. Atendo, e a voz do Marco atravessa a linha, quente e familiar, trazendo um conforto que eu nem sabia que precisava naquele momento.

— Oi, liebe — ele diz, com um sorriso que posso ouvir.
— Oi, liebe. Já está tarde aí? — pergunto, abraçando o travesseiro.

— Aqui já é quase meia-noite — ele resmunga. — Queria só ouvir sua voz antes de dormir.
— Eu também — respondo, tentando esconder o cansaço.

— Como está aí? O frio não está te matando?
— Está congelante, mas acho que o pior é a saudade.

— Eu queria poder estar aí agora — ele diz, e eu rio baixinho.

— Promete que quando eu voltar a gente vai aproveitar cada minuto?
— Prometo. E vou te esperar com o coração aberto.

A conversa vai diminuindo, as palavras ficando mais suaves, até que a despedida chega, doce e cheia de esperança.

— Durma bem, Alice.

— Você também, liebe. Boa noite.

A viagem me deixa uma sensação agridoce, mas necessária. É um lembrete de onde venho, do que deixei para trás e do que ainda posso construir. Enquanto espero o voo de volta para Dortmund, prometo a mim mesma que vou lutar pelo que quero, mesmo que isso signifique enfrentar tempestades dentro e fora de mim.

IMPEDIMENTO [COMPLETO]Onde histórias criam vida. Descubra agora