VII

97 31 13
                                        


É inacreditável. Não! É inaceitável. Partindo do pressuposto de que as folhas amareladas sem conteúdo algum são tudo o que possuo no momento, simplesmente não consigo evitar o derramar de algumas involuntárias lágrimas, ferindo mentalmente a mim mesma diversas vezes até que chego em meu ápice, jogando o livro ao chão.

Quando o faço, logo posso observar: Dentro de suas folhas semiabertas, se encontra um amuleto com símbolos e frases por mim indecifráveis, um mísero desenho inacabado, totalmente banhado ao que parece ser ouro, ao mesmo tempo apresentando semblante usado e até mesmo estando um tanto quanto empoeirado. Me aproximo do mesmo e me agacho, pegando a medalha em minhas mãos e a observando com curiosidade, porém sou despertada de meu rápido transe emocional pelo mesmo barulho que ouvira segundos atrás. Não resistindo a sensação de adrenalina que caminha em meu interior, acabo por dar pequenos passos para frente, observando atentamente o que se esconde ao final daquela caverna.

E então o barulho se aproxima, dessa vez fazendo com que eu pegue um pedaço de graveto pontiagudo que antes se encontrava no chão e o segure, dando pequenos passos para trás. De repente, ouço um bater de asas que toma completamente minha atenção. Concluo primeiramente que pode ser apenas uma ave. Desconfio que sim e ao mesmo tempo desconfio que não. Minha pseudoteoria porém, é abruptamente interrompida quando o ser antes não identificado entra em meu campo visual.

Mesmo que estando de costas, é nítida sua forma petrificada, assim como a besta que vi há dias na caverna com meus amigos e como todas as outras existentes. No entanto, não pode ser uma besta. Penso. Bestas só aparecem após a madrugada! Se por um acaso, for o caso... Por qual razão uma besta estaria se transformando em plena luz do dia?

Meu raciocínio logo também é interrompido por estrondosos ruídos que vem do local observado. Ruídos estes, que logo se transformam em berros de desespero e dor, e que se aproximam de mim a cada passo dado. Sua sombra horrenda refletida na parede da caverna mostrando aquela criatura com asas e garras fazem com que eu acabe por me esconder atrás de uma pedra gigantesca.

Quando o som enfim chega a apenas centímetros de mim, me dou por percebida. Sim, é uma besta. Uma besta que parece estar perturbada consigo mesma, gritando, e tentando ferir não a mim ou a qualquer outra pessoa, mas a si mesma. Quase como se estivesse em algum tipo de luta interna. Penso na possibilidade de fugir dali enquanto não sou notada, porém me distraio mantendo meus olhos fixados aos mais simples membros da besta, que parecem voltar a essência humana pouco a pouco.

Suas garras antes afiadas aos poucos voltam a ser apenas dedos, apenas unhas. Sua pele, mesmo que em um longo processo, aos poucos volta a coloração original, e é quando finalmente posso analisar bem seu rosto. É um rapaz. Um rapaz de pele branca e fios de cabelo de tom loiro pouco clarocom aspecto bagunçado e emaranhado que caem até o queixo. E no exato momento ele se encontra sem vestes de seu tronco para cima, ou seja, imparcialmente despido, procurando por algo, suponho que seja o resto de seu traje. E então ele cai no chão.

Tomo a decisão de dar dois miseráveis passos à frente, observando seu sofrível estado.

— Eu vou perguntar apenas uma vez. Quem é você? —questiono, em um balbuciar de lábios, quase que em um sussurro. Permanecendo agachado, ele vira seu pescoço para o lado sem dizer uma única palavra. E se levanta, me observando com seus olhos castanhos. Em um ato calculado, me dirijo até ele o prenso na parede da caverna, apontando o espeto em sua garganta.— Você não me respondeu. Quem é você?

Ele apenas sorri para mim, em seguida solta uma gargalhada espontânea.

— Bem, foram duas vezes.

— O que foi aquilo? Porque está rindo? Até pouco mesmo você estava com um semblante frágil!

— Bem, eu até gostaria de me explicar, mas não sei se devo confiar em você.

— E porque não?

— Você está com um espeto em minha garganta. — Ele diz, em um tom sarcástico. Observo minha mão direita e vou a abaixando pouco a pouco, juntamente com o espeto. Ergo meu pescoço até o fim da caverna, em busca de mais alguém, felizmente, sem sucesso. Rolo meus olhos pelo local, vendo o mesmo amuleto de pouco tempo. Devo ter deixado cair. Penso. Baixo meu corpo para agarra-lo, mas recebo um grito como reprovação.

— Não! Não toca nisso! —fala ele, se levantando e vindo em minha direção— não. Isso é meu.

— É meu. — Respondo.

— Ah é? E onde conseguiu? — Ele diz, cruzando os braços me lançando um olhar desconfiado.

— Ah, isso? É uma coisa que eu... — imediatamente pauso minha fala, me perdendo em raciocínios. Não é normal haver transformação durante o dia, o processo é noturno. Definitivamente não é normal. Pode ser algum tipo de armadilha. — Esse é um amuleto que ganhei de minha mãe antes que ela partisse. E não insista em pedir para ver. — Me recruto, com a voz firme.

— Você acha que eu nasci ontem? Esse é o amuleto de Garth!

Droga.

— Não sei de quem está falando.

— Sim, você sabe — insiste, com tranquilidade em sua voz— e eu por acaso só sei, pois também tenho um. É o que está com você.

— Mentira! E mesmo que fosse verdade, senhor sarcasmo, então onde estaria o meu?

— Abaixo de você.

Ele diz, lançando um olhar de reprovação em minha direção. Volto meus olhos para o chão rapidamente, o vendo lá. Então me agacho, o pegando e devolvendo o dele, mesmo que hesitando.

— Espera! Isso é estranho. Antes que troquemos alguma outra palavra, responda minha pergunta. Porque não se transforma como todos os outros? — Digo, aumentando meu tom de voz — Afinal de contas, quem diabos é você?

Amaldiçoada - A Jornada Maldita VOL. IWhere stories live. Discover now