Viagem

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                                                                     Meia-Noite

     Estava jogado na cama observando atentamente os números do relógio mudarem lentamente já que eu deveria estar dormindo. As 8 horas de amanhã eu me encontraria no aeroporto com Yuuri e Victor. Senti uma pontada no estômago de ansiedade.

    Revirei na cama dando as costas ao relógio, a mudança lenta estava me deixando irritado. Passaria 3 meses em Las Vegas com o casal mais insuportável que eu conhecia e  sinceramente, acho que é o casal mais insuportável que todos conhecem.

    Yuuri e Victor são super pegajosos, e no começo do relacionamento dos dois eu me sentia desconfortável com eles. Sim, minha cabeça era muito fechada e eu ficava confuso e enfurecido em como dois homens poderiam sentir atração um pelo outro. Entretanto, Yuuri sempre esteve lá por mim independentemente da forma que eu o tratava. O japonês sorria e fingia que eu não tinha feito nenhuma ignorância e não tinha agido de maneira ruim.

    Suspirei frustrado, meu coração parecia que sairia pela boca a qualquer momento. O engraçado é que eu já havia viajando antes, mas porque eu tinha essa impressão que dessa vez seria diferente? Talvez eu passasse mais raiva do que aproveitasse?

   Levantei reclamando e segui em direção ao banheiro. Me olhei no espelho.

   Eu ainda era o mesmo fisicamente, mas por dentro as mudanças já haviam começado e torciam meu estômago.

   Na semana anterior finalmente havia me formado em Engenharia Civil, mas não era o meu sonho. Era o que Nikolai, meu adorável avô, me impôs. Eu poderia ter recusado e seguido meu sonho como designer de moda, mas ele é meu último parente e eu sempre quis que ele se orgulhasse de mim.

   Nikolai foi afetado pela fase obscura que a Rússia passou durante guerras, ele era absurdamente conservador e "moralista". Comecei a rir só de imaginar como ele reagiria se soubesse que eu estou indo para uma viagem de 3 meses com um casal de amigos gays.

   Lavei o rosto e sequei na toalha clara. Suspirei fundo e voltei ao quarto, olhando para o criado-mudo, onde havia um porta retrato com fotos da época da faculdade. Sorri.
Em mais um dos meus devaneios e pensamentos me lembrei de como conheci Yuuri, fazendo com que a bolha em que eu fui criado começasse desmanchar.


   Estava tentando interagir com o 4º grupo durante aquele ano, mas todos tinham a capacidade de me irritar e incomodar. Passei pelo grupo dos nerds, dos populares, pelo grupo de uma banda e até por um grupo de meninas, porém não me mantinha com ninguém.

   Por que eu era tão deslocado?

    Algumas vezes eu achava que o problema era com os outros e outras vezes, achava que o problema era comigo e meu comportamento explosivo.  Já estava no segundo ano daquele curso insuportável e nem amigos eu tinha arrumado. Era tudo tão insuportável.

   Cansado de tentar interagir com aquele grupo de pessoas medíocres, me levantei e fui comprar algum suco para ter a desculpa de me afastar. Cheguei ao refeitório e comprei um suco de maçã. Olhei para o gramado, para o pátio e para o bosque, procurando algum lugar calmo para me sentar e fingir que estava tudo bem ficar sozinho na faculdade.

   Segui pelo gramado e sentei-me embaixo da árvore. Suspirei profundamente pela milésima vez no mesmo dia. Fechei os olhos e encostei na antiga árvore para sentir a brisa em meu rosto.

   Eis que começo a ouvir uma melodia conhecida por perto, parecia vinda de um celular.

  De onde viera o som?

One more night - HIATOSOnde histórias criam vida. Descubra agora