Eu ainda estava abraçado com ela, tive medo de me separar e vê-la desmoronar na minha frente, eu odiava ver pessoas sendo partidas. Me permaneci ali imóvel por um tempo, quando os soluços acabaram ela me afastou de forma devagar. Enxugou o rosto e deu um sorriso de lado.
— Se você fosse hétero eu odiaria esse abraço, não sou muito fã de contato físico. Não com homens. - fiz uma careta para vê-la sorrir, me senti bem quando a missão foi cumprida. —
— Sapatão.
— Adoraria ser... - ela deu um sorriso fraco e suspirou. — Eu tinha 12 anos quando minha mãe trouxe um novo "pai" para dentro de casa, o meu pai de verdade havia nos abandonado alguns anos antes, sendo sincera, desde que ele havia saída era frequente a mudanças de "pais". No começo meu padrasto fazia de tudo para agradá-la, mas algo me incomodava na forma que ele me olhava, entende? Querendo ou não, independente da idade, você sabe quando uma pessoa te olha de forma maliciosa. Eu contei a ela no mesmo dia que percebi que ele observava meu corpo de forma inapropriada, eu era só uma criança que ao menos tinha desenvolvido o corpo ainda e o maldito me devorava com os olhos! Minha mãe me ignorou, para ela eu estava mentindo e fazia aquilo apenas por birra, porque queria que ela ficasse sozinha esperando meu pai decidir voltar, eu realmente não queria isso. Era estranho - ela deu uma risada sem humor e desviou o olhar. — Quando soube dele pensei que finalmente teria um pai de verdade, mas me enganei.
— Megan...
— Os assédios duraram até eu fazer 15 anos, ele até esse momento só me olhava, de uma forma repugnante, fazia comentários maldosos e quando ninguém observava tentava passar a mão em mim. Durante alguns meses ele não fez nada, eu achei que tinha acabado aquele inferno, eu... eu estava tão feliz. Sabe o pior, Yuri?
Neguei com a cabeça.
— Ele havia dado uma pausa porque minha mãe estava desconfiada. Quando engoliu a mentira, concluindo que eu era uma porca egoísta que só desejava acabar com o casamento dela, ele decidiu que assédio era pouco e me violentou pela primeira vez.- ela enfiou as unhas na perna, como se isso ajudasse em algo, ainda silencioso eu peguei sua mão abrindo os dedos dela, evitando assim que se machucasse. — Eu gritei, eu pedi socorro, eu implorei pela minha mãe, eu vi sua sombra saindo da frente da porta. Ela não fez nada, no dia seguinte só me levou até o banheiro e disse que eu estava imunda e precisava de banho. Eu nunca me esfreguei tanto, queria tirar qualquer registro daquele toque nojento sobre meu corpo, da minha alma. Os estupros se tornaram frequente, ele começou a me bater e ficar possessivo, controlava com quem eu falava, onde ia, com quem ia.
Ela olhou para o céu e apertou minha mão, eu me segurei para engolir as lágrimas que tanto queria descer.
— Ele se convenceu que era meu dono, minha mãe passou a me odiar e me bater. Na cabeça perturbada dela eu estava roubando seu marido - ela balançou a cabeça negativamente, eu senti uma raiva inexplicável. — Eu tentei fugir, não pense que aceitei tudo calada, mas ele sempre me achava. Sempre a polícia me devolvia para aquela maldita casa por eu ser menor de idade. Ninguém ouvia meus gritos, quem dava atenção a uma jovem? Era drama, eles diziam. Todos acreditavam. Quando notei que meu corpo estava estranho logo após meu aniversário, eu esperei os dois irem dormir, eu finalmente tinha atingido a maioridade, ninguém me traria de volta se fosse pega. Naquela noite haviam dado um jantar para amigos, pagavam de casal perfeito e exemplar, sempre bem arrumados e sorrindo escondendo a podridão que aquela casa era. Estavam cansados demais e me mandaram limpar as coisas, foram dormir, peguei a mochila que manti escondida no armário de limpeza dentro de um balde dentro de vários outros. Eu que fazia os serviços da casa, ninguém mexia alí.
— A sua mãe me enoja. - ela deu um leve sorriso.
— Dentro da mochila havia algum dinheiro que eu juntava a alguns anos, dinheiro que sobrava em compras ou alguém me oferecia em datas comemorativas. Era coisa pouca, mas o suficiente para buscar minha liberdade. Roupas, documentos essenciais e alguma comida. Eu corri, desesperada com medo dele me ver, peguei um ônibus sem nem saber para onde me levaria. Apenas fui, três meses depois eu desmaiei no meu emprego, trabalho como garçonete em uma lanchonete aqui perto, o dinheiro não é muito mas paga um quartinho alugado em uma penção. Eu tinha planos... ele pode me achar a qualquer momento e isso me assusta, quando desmaiei ontem eu soube que estou grávida. Quatro meses. Eu quis morrer.... tem uma semente daquele monstro em mim.
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One more night - HIATOS
FanfictionYuri Plisetsky é um jovem recém formado no curso de sonhos do avô. Vive uma vida que não escolheu e luta diariamente contra ensinamentos que lhe foram impostos quando criança. Yuuri é seu amigo de faculdade e depois do casamento com o Piloto Victor...