Las Vegas, baby!

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A luz entrava pela janela que cobria a parede do meu quarto. Por que essa merda de janela gigante não tem cortina? Um som se fez presente e minha cabeça começou a latejar.

Telefone.

Levantei a cabeça do travesseiro e me apoiei nos cotovelos. Não consegui achar meu celular pelo quarto, mas o som continuava e muito alto. Joguei a cabeça no travesseiro pra ver se o som sumia.

Por que essa porra de cabeça dói? Virei para o lado e vi o maldito celular. Peguei na mão e joguei aquele negócio longe, o silêncio foi um alívio. MERDA! Não posso quebrar meu celular agora no meio de uma viagem! Levantei-me num salto e comecei a juntar carcaça, bateria, capa.

— Liga, liga, liga, por favor! - ligou. Suspirei e baguncei meu cabelo.

Olhei pra tela e havia três ligações perdidas do porquinho, como conseguia ser tão irritante? Revirei os olhos e me levantei em direção ao banheiro. Varri o lugar com os olhos e achei uma caixinha de remédios, lógico estamos em um hotel em Vegas, pessoas de ressaca aqui devia ser a coisa mais normal. Tomei um para dor de cabeça, decidi lavar o rosto. Apoiei-me na pia olhando no espelho, estava destruído e bagunçado...

— O que Diabos aconteceu ontem?

Tentei puxar memórias e só lembrei-me daquele maldito irritante chamado JJ e seu ego sufocante. Depois do DJ...

Ah não.

Yuuri e Victor bêbados, Puta que pariu! Por que insisto em sair com eles? Eles me deixaram sozinho lá quando eu pedi um táxi. Ah é, eu fiquei sozinho e o tal DJ me trouxe ao hotel. Lembro-me dele ser quente e cheiroso.

Hã? Que diabo de pensamento foi esse? Não me deixem beber novamente.

Sai do banheiro me arrastando igual um morto vivo, peguei meu celular e coloquei uma música calma para tentar relaxar. Por que tive que beber tanto ontem? Agora minha cabeça dói não me lembro de coisas importantes e estou confuso. Eu dancei? Lembro-me do Yuuri falando algo de chamar atenção, mas de quem? Ah! Esquece! Abri as redes sociais, Victor me marcou em uma foto.

Não me lembro disso também. Estava um Yuuri feliz junto de um Victor sorridente dançando atrás dele, JJ com uma moça que não conheço, rindo um para o outro. E claro O DJ, seu nome era Otabek se não me engano, muito próximo de mim, e eu olhando por cima do ombro e fazendo carão. Que gay! Revirei os olhos. Ignorei e fui olhar outras coisas. Havia algumas mensagens de amigos, Mila e Sala mandando selfies no meu apartamento.


Bloqueei o celular e voltei a pensar na vida olhando pela janela.

O que será que meu Avô diria me vendo dançar com outros homens numa pista de uma boate? Acho que ele não se orgulharia de mim.


— O inverno tinha acabado e as aulas voltaram na mesma semana. Eu estava animado, era minha quarta série, o último ano naquela escola antes de me separar dos meus antigos amigos. E, além disso, eu seria da turma veterana, ninguém mexeria comigo de novo! Meu avô me deixou em frente à escola recém-pintada e que já tinha muitas crianças correndo. Não demorou muito e avistei meus amigos sentados na escadaria de entrada. Assim que me viram, os cinco levantaram e vieram em minha direção.

Apertei a mão de um e outro e começamos a conversar. Um passava a mão na minha cabeça recém-raspada em um corte militar, a gosto do meu avô. Andamos pelo corredor fazendo muito barulho, chamando atenção e provando que agora aquele território era nosso. O sinal bateu e entramos a sala derrubando tudo e tentando alcançar os lugares ao fundo. Algumas meninas reclamavam de termos passado e derrubado algo da mesa. Só riamos e dávamos de ombros. Acomodamo-nos e quando passei o olho pela sala, à maioria rostos conhecidos. Entretanto, uma cabeça abaixada não era comum daquele ambiente. Cutuquei com o cotovelo um amigo que estava mais próximo de mim e indaguei se ele conhecia aquele pequeno menino. Ninguém conhecia o cabeça baixa, e parece que ele não fazia questão de ser conhecido. Ri e sentei em cima da mesa.

— HEY NOVATO! – gritei em direção a ele e algumas meninas viraram pra assistir. O vi travar no lugar e virar a cabeça com os olhos assustados.

Travei e o meu sorriso deixou de existir. O menino me olhava, meu coração estava quase saindo do meu peito. O que é isso? Abaixei-me da mesa e escondi a cabeça.

— Acho que tô passando mal. – abracei meus joelhos, eu estava morrendo por causa dos olhos daquele menino? Porque meu coração doía muito.

Senti uma mão no meu ombro, percebi alguém se abaixar na minha frente e assumir a posição que eu estava. Levantei os olhos assustados pra ver quem era e aqueles olhos me olhavam preocupado.

— Me desculpe, eu me assustei com você gritando comigo, me desculpe por favor. – ele disse preocupado e meus amigos chegaram mais perto indagando se estava tudo bem. – Eu sou o Demyan. – estendeu a mão para me ajudar.

Meu coração estava louco, eu não sabia como lidar com isso. O que era isso?

Logo Demyan fazia parte do meu grupo de amigos. Nunca fui tão próximo de alguém. Sentia-me livre com ele. Passou-se seis meses e logo as férias de meio de ano chegariam e meu desconforto no coração não passava. Quando as férias começaram, pedi para meu avô para passar em um médico para resolver isso. Testes, esteiras e raios-X.

Nada.

Nem a corrida de 30 minutos acelerava e sufocava meu coração igual quando eu estava na escola com Demyan. No final, nunca estive tão bem de saúde.

As férias acabaram e logo estávamos em aula de novo. Já tínhamos começado e ver quem iria estudar junto no próximo ano e quem iria se separar. Eu não queria me separar dele, mesmo ele me fazendo mal.

— Yu, Yu, quero continuar estudando com você até chegarmos à faculdade! – ele dizia apoiado na mureta da quadra.

Não respondi. O desconforto nunca foi tão grande.

— Por que você faz isso com meu coração Dam? Tá ruim de novo. – segurei minha camiseta na altura do coração. Ele me olhou e olhou em direção a minha mão.

— Seu coração tá batendo rápido? – indagou e o olhei. – O meu também bate assim com você! – Começou a rir.

Não sabia o que era aquilo, então apenas ignorei. O dia passou e de noite ajudei meu avô a fazer a janta. Quando na mesa, resolvi perguntar pra ele o que eu estava sentindo. Ele devia saber, já que era mais velho.

— Vovô. – ele me olhou. – Que problema que é quando você chega perto de uma pessoa e seu coração começa a bater rápido e amassa seu pulmão?

— Yuri? Que assunto é esse? – continuou mexendo na comida, mas não comia.

— É ataque cardíaco? Mas eu acho que sou muito novo.

— Yuratchka, sua saúde está perfeita. Acho que o nome disso é outra coisa, amor. Já ouviu falar? – levantei os olhos assustado e meu coração voltou a bater rápido. Obviamente eu sabia o que era amor, mas Demyan?

— Ham?

— Quem é a sortuda, Yuratchka?

Eu não podia mentir pro meu avô, ou podia?

— D-Demyan. – disse baixo e encolhido.

Silêncio.

Meu avô se levantou e se colocou do meu lado. Levantei os olhos e encontrei uma face escura. Ele me pegou pelo braço e começou a me arrastar escada a cima. Abriu a porta do meu quarto e me jogou pra dentro.

-- Fique de castigo.- Ele não me olhava. Eu estava assustado, o que fiz de errado? – Homem não gosta de homem, Yuri Plisetsky. Não seja nojento. Você me envergonha. – bateu a porta.

Eu estava errado. Eu envergonhei meu avô, tudo isso por que meu coração era estragado. Meu avô me odeia. Eu magoei a única pessoa que me ama. Eu me odeio.



Meus olhos estavam cheios de lágrimas pelas lembranças. Mas olha por um lado bom: formei-me no curso que ele queria, mesmo sendo um saco. Agora eu vou poder ganhar meu dinheiro, achar alguém pra me apaixonar e montar uma família.

É isso que ele sempre quis.

É isso que eu quero, não? Olhei pra rua, andares a baixa de mim. As pessoas passeavam, voltavam para seus hotéis depois de se divertir, todos estavam felizes com o seu próprio eu interior, acho. Por que eu continuo me achando deslocado mesmo com tudo em perfeito estado? Eu estou bem, meu avô também, o casal pegajoso está bem. Yuuri sempre foi feliz assim? Eu me lembro de nos tornarmos amigos por que ele era sozinho. Eu também, mas ele parecia ter aceitado isso e só arrumava coisas para ocupar o tempo. Desde quando o porquinho era gay? Eu não me lembro dele olhando pra ninguém e nem namorando nenhum menino, na verdade eu não me lembro dele namorando ninguém. Que estranho, quando ele virou gay?

Meu celular começou a tocar novamente e logo atendi.

— Oi Katsudon.

— YURI? Acho que precisamos conversar...

— Ham? Pode falar. - estranhei o tom de voz do outro lado da linha.

— Espera, estou indo ai.

— Não, não precisa... - já tinha desligado a chamada.

Levantei-me da cama, abri a porta pra quando Yuuri chegasse. Sentei-me na cama e fiquei olhando a porta esperando ela abrir. Não demorou muito e o japonês entrou sozinho com meio sorriso nos lábios. Onde estaria Victor? Será que eles brigaram ontem? Que estranho.

— Yuri, o quanto você lembra de ontem? - Sentou na cama e ficou me olhando sério. Será que fiz merda?

— Quase tudo, eu acho. Aquele JJ era um saco! - dei de ombros e sorri para o clima ficar menos pesado do que estava.

— Você se lembra de dar um fora numa moça? Ou então de beber e ir dançar rebolando no meio da pista trocando olhares com outra pessoa? - Olhei assustado.

— Eu fiz isso? Eu não me lembro dessa parte...

— Eu lembro e acho que muito mais gente lembra também. Você estava flertando com o DJ?

— HAM? Desde quando você lembra das coisas quando bêbado? E como assim eu flertando com o DJ?

— Não Yuri, é sério. Eu não tinha bebido tanto, eu vi. - Me levantei e fiquei de cenho franzido.

— Não é por que você virou gay que eu também vou virar depois de algumas doses, porco!

Yuuri respirou fundo e apontou a cama para que eu me sentasse novamente.

— Ninguém vira gay Yuri, você sabe disso.

— Me desculpa, mas é que eu nem sequer lembro quando soube disso vindo de você. - Cruzei as mãos no meu colo e abaixei o olhar. Porque ando pensando tanto nisso?

— Só por que eu não sabia que era gay antes, não faz com que eu tenha virado gay. A única diferença é que tem pessoas que aceitam logo no começo e tem aquelas que lutam contra por inúmeros motivos.

— E você é qual? - finalmente olhei-o nos olhos.

— Eu lutei contra, mas ao meu modo. Eu me exclui. Nunca me interessei por meninas e acho que ignorei o possível interesse que tinha por alguns meninos. Particularmente, quis pensar que eu não me interessava por ninguém.

— Entendi. Então com o Victor as coisas mudaram?

— Mudaram. Agora o real Yuuri consegue sorrir e sentir. - Ele me dirigiu um sorriso. - Mas então Yuri, eu vou te falar pra que não se assuste, mas você estava flertando com o DJ e, por um momento, eu vi que vocês quase se beijaram. Talvez tenha sido o álcool, eu sei, mas não fica se julgando, ok? Não há nada de errado nisso.

— Yuuri, eu acho que já gostei de um menino quando criança. – ele me olhou e se aproximou colocando a mão em meu ombro. – Mas meu avô me repreendeu tanto e me tirou da escola antes mesmo de eu confirmar qualquer coisa. – O porquinho me abraçou e não disse nada. Senti um nó na minha garganta.

Depois que acalmei, Yuuri se levantou e entregou um copo d'água pra mim. Segurei o copo com o líquido dançante.

— Ah... Eu não consigo acreditar que fiz algo assim do nada.

— Eu não vou mentir e dizer que não fiquei surpreso, porque eu realmente fiquei, mas isso não te classifica como nada Yurio, apenas que você se sentiu atraído por alguém. Bom, Victor não acordou ainda e achei que seria melhor hora para vir falar com você sobre isso. - Yuuri se levantou.

— Yuuri, quando eu sei que a minha vida está certa?

— Quando você não precisa se perguntar isso em nenhum momento, Yuri. - virou de costas olhando para a porta. - Eu espero que você fique bem.

Ele se encaminhou em direção a porta, mas parou com a mão na maçaneta.

— Ah Yurio, antes que eu esqueça. Viktor teve a brilhante ideia de darmos um passeio de limusine pela cidade.

— Como ele consegue ser tão extravagante e você não sair correndo?

Yuuri começou a rir e se jogou na cama a minha frente.

— Eu o amo, Yurio. Enfim, vai querer vir com a gente?

— Claro que eu vou! Até parece que eu já não estava me incluindo.

— Ah não! Você fica Yurio.

Eu e Yuuri olhamos na direção da porta, um Viktor com bico e de braços cruzados nos encarava da porta.

— Por que ele não vai com a gente Viktor?

— É! Por que eu não vou com vocês?

Viktor andou até nossa direção e se sentou no colo de Yuuri, que corou instantaneamente, mas passou os braços em torno de sua cintura.

— Yurio, olhe bem nos meus olhos.

— O que você quer careca?

Ele me olha sério, o que é estranho quando vem de Viktor.

— Eu quero fazer sexo com meu marido, Yurio!

One more night - HIATOSOnde histórias criam vida. Descubra agora