XXIV Encenação.

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A sensação de perda entranhou-se em meu intimo como uma mancha de tinta em uma camisa branca que não importa o quanto você lave, ela permanece lá, maculando o que antes estava imaculado. Talvez por eu ter toda a eternidade para pensar em meus erros demorou bastante tempo até que aceitasse o que era impossível de mudar. Por décadas a face de Jô e de Jade assombraram meus sonhos.

Eu e lorde Sky vivemos no Japão por mais vinte anos antes de meu senhor decidir que era hora de partirmos. Ele argumentou que o lugar estaria seguro e sob vigilância do conselho e apesar de não termos tido muitos incidentes relevantes. Partimos rumo a Alemanha. Em Berlin havia uma abertura na realidade que ao contrário da que guardávamos na terra do sol nascente, era bastante movimentada. O conselho desconfiava que dois grupos de sugadores de sangue estava prestes a iniciar uma batalha pelo controle da cidade.

Fomos de bom grado. Queria de alguma forma me afastar das lembranças que aquele país trazia. Nunca pudemos imaginar que a nação que fora derrotada na primeira grande guerra fosse iniciar algo ainda pior apenas um ano após a nossa chegada. Um país inteiro clamava pela oportunidade de reverter a situação que estava submetido. Pagando altas taxas as nações vencedoras, devolvendo territórios conquistados; ajudando a reconstruir o que fora devastado pela guerra e assim ferindo profundamente o orgulho de toda uma nação. A quebra da bolsa americana afundou o país na fome, fazendo assim surgir o partido nazista... A luz no fim do túnel.

O partido nazista reacendeu o orgulho que outrora estava ferido, instigando aos alemães valorizar sua pátria... Os preparando para outra guerra. Uma guerra que deixaria marcar eternas na história da humanidade e em minha memória imortal.

Olhei com desgosto para meu reflexo no espelho. Fui obrigado a cortar os cabelos, para assim misturar-me ao povo alemão. Eu e o auto guardião passávamos despercebidos por causa de nossa aparência, mas vez ou outra tinha que usar meus dons de persuasão para convencer algum oficial nazista que era perfeitamente normal dois jovens com idade suficiente de está em combate trabalharem em uma alfaiataria.

Suspirei resignado e dei as costas ao objeto pendurado a parede e caminhei para a sala de estar onde o lorde terminava de abotoar o casaco. Era hora de abrir a loja. Vesti o meu e o acompanhei pela rua encontrando muitos outros saiam para trabalhar parecendo alheios a atrocidades que eram cometidas em nome de uma ideologia doentia. Meu guardião interior vibrava de ódio todas as vezes que imaginava os sofrimentos que inocentes eram obrigados a passar por causa de sua raça.

O dia parecia refletir meu estado de espírito desolado. O sol estava encoberto por uma cortina espessa de nuvens. O vendo frio eriçava a pouca pele exposta, fiquei quase aliviado ao entrar na alfaiataria. Só estaria inteiramente aliviado quando aquele derramamento de sangue inocente acabasse.

- Quanto tempo mais acha que essa guerra vai durar? – Perguntei ao pendurar o casaco atrás da porta, tomando cuidado para manter a voz baixa. Ultimamente aqui as portas tem olhos e as paredes tem ouvidos.

- Sinceramente meu amigo. Creio que não irá muito mais longe. – Lorde Sky arregaçou as mangas e tirou a placa de "fechado" da porta. – Ontem as tropas nazistas estão sofrendo derrotas esmagadoras. Mas é claro que eles não admitirão isso até que seja inevitável.

O orgulho. O veneno que cega e ensurdece. Era impressionante como via cada vez mais pessoas apresentando esses sintomas. E mais um caso de humanos acometidos com o mal do orgulho acabara de entrar na loja. Um homem bem vestido rebocando o que parecia ser sua filha nos mediu com o olhar e pela expressão esnobe em sua face pálida havia gostado do que viu.

Guardiões origens - Edward. +18 (Não Revisado)Onde histórias criam vida. Descubra agora