Ainda naquela tarde, Luciano esteve caminhando por toda extensão do córrego Maria Chica, desde sua nascente, no final da vila Santa Cecília, para quem vai para o bairro da Jacutinga, passando por todos os terrenos de horticultura ali existente, parando coincidente-mente para conversar com um dos proprietários, que estava preparando um canteiro, lhe perguntando:
— Por acaso, na última quarta feira, não viu uma criança por estes lados?
— Por acaso, o senhor está procurando o menininho que desapareceu? — Questionou-o o horticultor.
— Isso mesmo! — Se animou Luciano. — O senhor sabe alguma coisa?
— Sei que ele é meu afilhado! — Insinuou o homem, em um tom muito alto, parecendo estar falando com um surdo — Antes ele vinha sempre à minha casa. Geralmente vinha no período da tarde. Só que agora, faz um bom tempo que ele não aparece. Fiquei sabendo que ele sumiu, porque vendo legumes nas ruas e sempre passo na casa dele.
— Por acaso, ele não teria vindo nadar aqui no Córrego Maria Chica?
— Não! Ele nunca nadou aqui! Mesmo quando vinha à minha casa.
— Pescar?...
— Regis nunca gostou de pescar!
— Tudo bem. — Desanimou Luciano. — Qualquer coisa nos avise.
— Moço... — Implorou-lhe o horticultor. — Ache esse menino pra nós. Por favor!
Luciano continuou caminhando pelas hortas e chácaras, depois, cortando por dentro da cidade, se deparando com a água represada, em viaduto recém-construído pela prefeitura, sobre a Rua Mato Grosso, depois em nova represa, aos fundos da fábrica Incopa de papéis reciclado, onde vistoriou com cuidado, devido, alem ser o local preferido pela criançada, Regis mesmo já lhe dissera, que por diversas vezes, escondido da mãe, já estivera ali, nadando, completamente nu, com outros meninos de sua faixa etária. Ao ser interrogado por ele, o porquê de nadar nu, o menino simplesmente respondeu: “Se é doido. De que adianta a gente nadar escondido, se chegar em casa com a roupa molhada?”
Como, alem das lembranças que o fazia rir, nada foi encontrado, continuou seguindo por aquele trecho ermo, passando por vasto mamonal nativo, adentrando depois, ao trecho urbanizado da cidade e seguindo até onde aquele pequeno rio desaguava no rio Lajeado, dez quilômetros de sua nascente.
Na manhã seguinte, embora muito descrente, continuou sua busca, seguindo pelo rio Lajeado, por outros quase dez quilômetros, em vão.
Chegando a sua casa para o almoço, ainda na entrada da sala, Sara lhe dissera ansiosa:
— Querido, o Rafael esteve aqui e disse que tem novidades pra você. Acho que ele prendeu um suspeito.
— Prendeu alguém? Encontrou o menino?
— Não encontrou Regis! Só que prendeu um suspeito.
Luciano, desesperado, seguiu até a cozinha, tomou um copo de água, rapidamente e como ainda não era meio dia, resolveu:
— Vou lá agora!
— Almoce primeiro. — Insistiu a esposa. — Já está pronto.
— Nada disso! Preciso encontrar o Rafael, antes que ele saia pro almoço.
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Anjo da Cara Suja
Novela JuvenilÉ possível existir a amizade saudável entre um adulto e uma criança que até então era desconhecida? Por que a velha questão, nunca fale com estranhos ainda persiste? E por que precisa haver esta discriminação, dando a entender que a criança é um ser...
