Qual dor pode ser pior do que a de uma criança desaparecida?

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          Assim, o tempo ingrato foi passando devagar, fazendo com que todos percebessem, que o velho ditado que diz: só o tempo será capaz de cicatriz as feridas, causadas por drástico sofrimento, não cabia neste caso.

            Já havia passado sete meses, desde a fatídica data, em que aquele menininho meigo não voltara para sua casa e as feridas continuavam abertas, como se dentro delas, houvesse alguma bactéria, que não as deixavam cicatrizar.

            Às vezes, os pais de Regis, principalmente dona Odete, chegava à conclusão, em que uma criança desapareci-da era pior do que uma criança morta; pois quando uma criança morre, a gente sofre muito e jamais a esquecerá também, mas com o coração partido, a gente a deposita em um belo e triste caixão de madeira, depois a leva para sua derradeira morada, em um campo santo. Neste caso, realmente, só o tempo será capaz de cicatrizar tais feridas. A gente sabe, que aquela criança jamais voltará, mas pelo menos sabe onde ela está. Já com a criança desaparecida, a gente, a toda hora, a imagina chegando correndo e nos abraçando, para sanar a tristeza, da grande saudade dessa perda. A todo o momento, a gente fica se perguntando, o que estará acontecendo com ela. Às vezes acredita que ela também já morreu. Depois desacredita e sente a esperança de que ela apenas foi para o colégio e daqui a pouco vai chegar. Parece um grande pesadelo, que insiste em não acabar, fazendo doer fundo dentro da gente, dentro de nossos dois corações: o coração alma e também o coração carne.

            Às vezes se postam até de joelhos, em orações desordenadas e desacreditadas, sendo atrapalhada ao meio, por vastas recordações, de uma criança pobre, porem feliz, trabalhando e brincando, em gritos, risos e correrias, pelo interior de casa tão humilde, onde impera o amor.

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            Para Luciano e Sara, porém, procuravam deixar seu lado egoísta, se lembrando sempre, que se a perda daquele anjinho, lhes fazia sofrer tanto, apesar do consolo em ter consigo a sagrada presença de seu filhinho adorado, alem do consolo, de cativar a sagrada amizade do outro anjinho Paulinho; imaginavam o sofrimento dos pais, que só perderam.

            Era sábado à tarde, Luciano estava em sua sala, com o bebê fazendo gracejos em seu colo, enquanto Sara lhe preparava uma mamadeira de leite Ninho, já que o seu leite natural, teria diminuído consideravelmente, quando alguém bateu palmas no portão e ele foi atendê-lo. Era dona Odete e outra mulher, de pele negra, estatura mediana, um pouco acima do peso, cabelos também negros, encaracolados, aparentando seus cinquenta anos de idade.

            Quando se aproximou com o bebê no colo, dona Odete, lhe disse com leve sorriso, entre a dor que ainda não passara:

            — Finalmente vou conhecer o pequeno Regis Gabriel!

            Realmente, apesar da promessa, ela jamais esteve naquela casa, com tal objetivo. Provavelmente não se sentia preparada para conhecer outra criança, que levava o nome, em homenagem à sua grande perda.

            Fez um gesto, fazendo questão em segurar o bebê em seu colo, beijando sua fronte e acariciando seus cabelinhos, que agora se faziam bem escuros e de certa forma, até compridos.

            — Até parece meu Regis, quando era nenê! — Disse ela, em um sorriso sofrido.

            Luciano não compreendia o porquê, de se parecer com Regis, se ele tinha os cabelos castanhos.

            — Vamos entrar! — Convidou-o.

            — Não! Obrigado! — Agradeceu dona Odete apre-sentando-lhe a outra mulher. — Esta é dona Josefina. Ela é benzedeira e se ofereceu para ir comigo, ao local em que meu filho desapareceu para descobrir o que aconteceu. Você me explica direito aonde é?

Anjo da Cara SujaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora