Cap.2 - Construindo uma amizade.

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           Na segunda feira, Luciano ficou aguardando ansioso, olhando pela janela do quarto. O menino chegou sorrateiramente e como de costume, acomodou-se ali no chão da entrada. O homem foi até ele, abriu o portão e o convidou:

            — Vamos entrar!

            Em silêncio, o menino entrou consigo até a sala, cumprimentou Sara, que como sempre fazia, para descansar das atividades diárias dentro de casa e esticar as pernas, permanecia deitada no sofá de três lugares; sentou-se, desta feita corretamente sobre a poltrona menor. Imitando-o, Luciano sentou-se no outro sofá e aproveitando o intervalo comercial, resolveu puxar conversa:

            — Sábado você não veio assistir a novela. O que aconteceu?

            — Sábado?... — Pensou um pouco. — Eu fui ao sítio.

            — Que legal! Dormiu por lá?

            — Não! Cheguei tarde.

            O homem não acreditou muito em sua justificativa. Mas poderia ser verdade; então resolveu insistir na conversa, já que ele quase não falava.

            — A que horas você toma banho?

            — De noite. Na hora de dormir.

            — Por que não toma banho à tarde, antes do jantar?

            Ele se espantou um pouco pelo atrevimento daquele quase estranho, se interferindo em sua vidinha infantil. Levantou um pouco o braço direito, de encontra ao rosto e forçou as narinas para sentir seu próprio odor. Fez o mesmo com o braço esquerdo.

            — Desculpe-me. — Pediu Luciano, de certa forma arrependido por sua atitude. — Você não está fedido. E sei que não tenho nada com isso.

            — É que à noite a gente brinca na rua. — Explicou o menino compassadamente. — Se eu tomar banho antes do jantar, acabo sujando novamente e minha mãe briga.

            — Entendi. Então você faz parte daquela turma, que faz a maior algazarra na rua, todas as noites?

            — Como!? — Surpreendeu-se.

            — A meninada que faz a maior gritaria na rua? — Insistiu Luciano, ironicamente.

            — Oh... Oh! — Balbuciou tão engraçado, que Luciano teve que repetir:

            — Oh... Oh?!

            — Desculpe. — Pediu muito acanhado. — A gente só brinca.

            — Não tem nada que me pedir desculpas. Vocês precisam brincar mesmo. E fazer algazarra mesmo.

            — Uhmm... — Não lhe entendeu.

            — Você é criança, menino! E realmente tem que brincar. Fazer barulho... Bagunça... É claro que não deve fazer arte, que prejudique outras pessoas.

            — O que você tá falando?

            — Ele tá falando pra você brincar bastante, garoto. — Explicou Sara. — Sua infância é passageira. A fase criança da vida é muito curta e loguinho você já será um jovem e então, só restará às recordações dessa fase de menino.

            A novela se iniciou e todos se calaram. Foi aí que Luciano percebeu que todos, meros seres mortais, estavam se transformando em escravos daquele bicho eletrônico. “Lembrei-me... — Meditou Luciano. —... que todas as noites, mesmo antes daquele novo visitante aparecer, eu e minha esposa, ficávamos horas ali naquela sala, diante do televisor, completamente em silêncio. Naquelas horas, ele era o senhor absoluto: só ele falava e nós só ouvíamos. Era como se ele mandasse e a gente obedecia. Até aquele menininho simples, que costuma brincar na rua, com outros moleques de sua faixa etária, estava se transformando em novo escravo. Claro que ele assistia apenas a novela, em torno de quarenta minutos diários, porem é assim mesmo que começa: primeiro uma novela, depois um seriado e então um desenho... Quando ele perceber, vai estar passando grande parte de sua vidinha simples, à mercê daquele senhor eletrônico”.

Anjo da Cara SujaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora