Hain se esgueirou por entre duas rochas. O vento agitava as folhagens das esparsas árvores do cume da montanha, o único lugar na ilha que não era totalmente recoberto de vegetação. Sua respiração ficou mais ritmada e pesada, e a adrenalina percorria seu corpo. Observou a encosta da montanha através de uma fresta. Seus olhos acurados enxergavam os pequenos pedregulhos em detalhes minuciosos, como se cada parte distante daquele pedaço de paisagem estivesse perto de si. Ainda assim, nada. Nenhum movimento. Com a audição primorosa de seu pai, poderia ouvir o gigante de árvore se aproximar. Era uma pena não tê-la herdado.
Segurando firme o machado em mãos, respirou fundo. O medo lhe dominava, porém, sua pouca idade não poderia ser uma desculpa para covardia. Deu dois passos em direção à saída do abrigo, esfregando seu corpo na rocha. Espreitou o lado de fora, enquanto o silêncio perdurava. Talvez o gigante estivesse ido embora. Ou se escondera, esperando o pequeno malaki sair do esconderijo para uma emboscada.
Foi quando um olho enorme, avermelhado e maligno apareceu diante dele. O garoto urrou de susto. Seu corpo que estava quase fora da fenda fez imediatamente o movimento de retorno para mais adentro do abrigo, enquanto suas asas atritavam na pedra gelada. O buraco se tornou escuro e sinistro. O olho do gigante sumiu e em seguida galhos e folhas que se organizavam para formar algo parecido com dedos, surgiram para puxá-lo.
Apavorado Hain agitava o machado à frente tentando escapar das mãos do gigante. Conseguiu ferir as pontas dos dedos do inimigo. O cheiro da seiva se espalhava pelo ar e pedaços de madeira caíram no chão. O brado de dor do gigante quase o ensurdeceu. O monstro retirou o membro, fazendo o buraco iluminar uma vez mais. Que sentisse muita dor. Era a vingança por tê-lo feito ficar ali dentro durante todo esse tempo.
Esgueirou finalmente para fora, respirando largamente. Os raios de sol caíam sobre as árvores suavizando suas formas. Diante dele estava o gigante encurvado entre as folhas, segurando a mão ferida. Pode vê-lo em sua totalidade; as pernas, os pés, os dedos, tudo no monstro era feito de galho retorcido onde pequenas folhas verdes nasciam timidamente. Reclamando daquele jeito pelos dedos perdidos, parecia mais um chorão.
O gigante parou de choramingar, e voltou-se para Hain. O vermelho em seus olhos intensificou, o deixando ainda mais sinistro. O monstro agora de pé gritou de raiva, desejando fazer de Hain inúmeros pedacinhos de carne e penas. Não tinha tempo para sentir medo, iria enfrentar aquele monstro, mesmo sendo maior que ele. No entanto não lidaria com tamanho mal sozinho: ao seu lado apareceu um belo leopardo, com a pelagem alaranjada e rajada de marrom. O pescoço do felino eriçou quando reconheceu a ameaça. Subiu no dorso do animal, erguendo imediatamente seu longo machado de guerra para desafiar o gigante para o duelo.
Hain era o guardião da montanha, abaixo dela o bando trabalhava despreocupado sem imaginar tamanho perigo. Ninguém mais seria capaz de matar o monstro de árvore. O inimigo avançou com o braço, fazendo Hain desviar por poucos centímetros. A rajada de vento raspou em suas têmporas e o braço do arbóreo encontrou o chão, levantando camadas de terra e grama. Logo em seguida o garoto se esgueirou para debaixo do olhar do adversário.
A lâmina de aço do machado cintilou quando Hain golpeou o tronco do arbóreo. O ferimento foi mortal. O monstro em queda livre urrava de dor e desespero. Segurando firme o pescoço do leopardo, o garoto fugiu debaixo do gigante temendo que ele caísse sobre si. Na corrida ainda foi atingido pela seiva ocre que jorrava do corte no monstro.
Desceu do leopardo e acariciou a cabeça do animal, sorrindo e compartilhando a vitória - Ninguém pode com a gente! – disse para o companheiro de guerra. Eram grandes e poderosos juntos. Seu machado escorregava de suas mãos por conta da gosma do monstro e a paisagem toda celebrava a coragem de Hain e seu felino feroz.
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Os Mutilados
FantasyHain e sua tribo fugiram voando da perseguição que sofriam no Continente de Cima. Com suas asas admiradas como artigo de luxo, suas mãos desejadas para o trabalho escravo e seu sangue precioso para realização de rituais, os olhos dos adestradores, c...