Entrou na cozinha respirando fundo. Deixou seu corpo perder a calma e seu coração batia em ritmo alvoroçado. Encontrou as duas mulheres recostadas num canto, entre o fogão de lenha e uns caixotes de legumes velhos. Choravam com os braços unidos em abraço. Velhas conhecidas malqueridas por Alfarir. Quando vivia como adestrado, sabia a maneira que preparavam a comida dos escravos, tratando com desdém os mutilados do barracão. Isso porque Kadima havia posto em seus pés sandálias, além de as colocarem em sua própria cama. Se achavam superiores a todo o resto. Matou as duas. Sem testemunhas. Faltava Syd ser morto.
Seguiu para a sala de jantar depois da cozinha, e numa porta à direita para o vestíbulo. Ignorou a escada que levava ao andar superior. Kadima havia comprado coisas novas. Sua casa agora tinha flores espalhadas em vasos envernizados e pintados de arabescos, sob pedestais de marfim. Na porta de frente a que viera, estava a biblioteca, onde entrou. No centro havia uma mesa comprida de mogno com dez cadeiras com encostos entalhados com pares de corvos. O local estava iluminado, com candelabros de bronze espalhados entre os vãos das estantes recostadas às paredes. Esses móveis se alteavam sob um tablado de madeira mais elevado que a mesa central, abrigando livros de capas de couro, entre inúmeros pergaminhos que Kadima jamais lera. À frente da porta, no outro lado do cômodo, perto da parede ornamentada com um mapa do território de AlGorab, ficava a escrivaninha. Observou sobre ela um tinteiro de vidro com bordas de ouro negro, e uma pena mergulhada. Papéis e mais papéis rabiscados.
A mesa tinha o fundo inteiriço de frente ao salão, escondendo da visão de Alfarir as pernas da frondosa cadeira nela alojada. Deu à volta, puxou o assento e olhou para debaixo. O covarde estava encolhido, segurando a respiração e talvez uma vontade maluca de se cagar. Os olhos de Syd eram duas amêndoas arregaladas.
Alfarir estava suando por conta da raiva. O filho de Kadima era mais odioso que o pai. Enquanto o segundo se preocupava mais em adestrar suas aves, o primeiro imaginava maneiras para enricar e de castigar seus escravos. Havia matado uma garota de um pouco mais de quinze anos, no castigo da Mutilação. Alfarir jamais esqueceria do sofrimento da menina quando arrancaram no serrote um pouco mais do toco de osso que sobrava depois da amputação das asas. Os escravos ficaram três dias cuidando dela, enquanto ardia em febre com o osso infeccionado. Sem remédios, alimentada pior que gado a menina então caiu morta. Syd não permitiu nenhum ritual fúnebre.
Naquela época a máscara de animal obediente de Alfarir quase caiu.
-Alfarir? - gaguejou o homem enquanto era retirado á força do esconderijo. O malaki sorriu com uma adaga lhe ameaçando a barriga. - Ah seu filha da puta! - Syd ia perdendo o medo e mergulhando em indignação e surpresa - Você havia sido sequestrado! Me explique essa merda!
O malaki não receberia mais ordens de ninguém daquela casa. Segurou o crânio do homem e o mergulhou na madeira da escrivaninha. Depois do barulho oco, ele retornou com dois fios de sangue deslizando suaves ao lado dos lábios, lambuzando a barba espessa e negra. Um prazer sobre aquilo dominou o Falcão. Retirou a máscara devagar, num ritual misto de algo físico e simbólico. Remover o objeto do rosto, era como se libertar do cinismo que aprendera para sobreviver naquela casa. Syd e Kadima jamais conheceram sua verdadeira face, acreditando que seu sumiço foi resultado de um sequestro.
-Como? - a voz do homem ia suavizando. - Você sabia que meu pai não estaria?
-Sim. - Os olhos dos dois se encontraram - Cadê meu irmão?
Syd riu segurando o nariz, sua mão manchava-se de vermelho.
-Ah, então tudo isso é por causa do seu irmão?
-Eu queria queimar sua bunda também e destruir seu pai. Não sou um malaki tão simples assim. Você vai responder? - as últimas palavras saíram gritadas. Empurrou a adaga contra a barriga do homem, controlando o desejo de enterrá-la mais.
-Seu irmão? Ora. Está com Adarab, como você sabe...
-Mentira. Diz onde ele está!
O homem começou a gargalhar. Sua maneira de vestir havia mudado. Largou de lado o manto negro dos adestradores. Vestido como um nobre, usava uma calça marrom sóbria, uma camisa de seda escura abaixo de um colete vermelho bordado com fios dourados. A mistura do vermelho na roupa com o verde de seus colares e do broche atando o tecido marrom do turbante era grotesca.
-Meu pai costumava dizer que nós dois éramos como irmãos... - Syd ficou sombrio. - Eu sempre disse que ele não deveria foder com puta malaki.
Alfarir enterrou novamente sua cabeça na madeira. Dessa vez o baque o deixou tonto. O nariz retornou ainda mais quebrado. Durante um tempo o falcão ficou ouvindo o gemido de dor do desgraçado.
-Seu irmão? Se não está com Adarab, foi porque não aguentou o elefante comendo o cu dele! - a risada de Syd preencheu a biblioteca. Alfarir empurrou um pouco mais a adaga, e se conteve a tempo de lhe perfurar. O homem estremeceu. - Deve ter sido um dos que fugiram dele. Na mesa. - Apontou algumas folhas. A mão livre de Alfarir as alcançou, e nelas procurou o selo de Adarab. Encontrou uma escrita curta. Leu rapidamente e amassou o papel.
-A recompensa era alta pela cabeça dele. - disse Alfarir em meio à raiva.
-Pois é. Teríamos mandado ele de volta. Vê? Não fizemos nenhum mal ao seu irmão. O que vai fazer agora?
O malaki rangeu os dentes e esticou um pouco as asas para trás. Sua penugem era marrom com listras escuras, que sob o sol refletia um tom azul. Na parte interna as penas eram brancas com pintas escuras. As mesmas que seu irmão um dia tivera, antes de ser mutilado por Kadima.
-Te matar. - respondeu seco. Observou os olhos de Syd arregalando uma vez mais.
-Ora! Veja bem. Se me matar... se me... sabe, vai ser pior... Vão procurar sua cabeça.
-Não deixei nenhuma testemunha até agora. Pretendo continuar assim. - Ria com a mão tremendo para empurrar mais a lâmina. Quando o rapaz viu o desejo do malaki, estremeceu.
-Tem mais motivos para me deixar vivo! - disse, desesperado. Alfarir soltou um pouco a lâmina, permitindo alívio e esperança perpassar o corpo do oponente. Sua mão esquerda segurava agora um dos punhos de Syd. Sorriu amigavelmente, vestindo uma vez mais a máscara invisível que usou tanto tempo. O rapaz a reconheceu dos tempos antigos.
-Bem, podemos acertar isso. - disse o enchendo de esperança, o homem sorriu ante a simpatia fingida no rosto do malaki - Mas tenho dois grandes motivos para te matar, e estou ansioso demais para explicar.
Enterrou a adaga três vezes na barriga de Syd e deixou o corpo agonizante sob a escrivaninha, tingindo os papéis com o rubro do sangue.
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Os Mutilados
FantasyHain e sua tribo fugiram voando da perseguição que sofriam no Continente de Cima. Com suas asas admiradas como artigo de luxo, suas mãos desejadas para o trabalho escravo e seu sangue precioso para realização de rituais, os olhos dos adestradores, c...