Capítulo 4

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Sua mulher aparecera triste e encolhida num canto de um navio mercador. Soren abandonou o comerciante de imediato, deixando os tecidos que exibia para voltar sua atenção para ela. Fez a negociação com a consciência de que ao comprar um ser humano estaria alimentando um mercado perverso. Mas não foi capaz de abandoná-la. Levou tempo para conquistar o coração sensível da mulher, escondido numa superfície de amargura e dor. Valeu a pena o esforço, jamais conhecera no mundo alguém tão iluminado quanto Fath.

Quando decidiu se casar, seu pai lhe perguntou "as mulheres de nosso povo não são suficientes para você?". Havia nele um medo infundado por ela devido as histórias que conhecia. Escravocratas malditos. Fath mostrou que eles poderiam ser sim tudo isso, e pior: eram capazes de escravizar também os seus, além de caçarem os malaki.

Dois dos caçadores zarparam pela floresta procurando Hain. Ficou aquele que feriu seu ombro, já armado com outra flecha lhe fitando feroz. Quatro linhas tatuadas sombreavam o rosto do homem, na região logo abaixo de seus olhos, e sua boca era um arco tênue e escuro. A pele num tom mais moreno que a de Fath. As histórias que ela contava reviravam sua mente. Era um caçador Mahul. Estes homens seguiam algo parecido com o deus caçador, Lobus, embora jamais pronunciassem seu nome.

O arco retesado do caçador lhe ameaçava. A floresta permanecia passiva, e a cachoeira caía calmamente. "O universo está cagando para o que anda acontecendo com a gente" dizia seu pai, fatalista como sempre. A voz dos caçadores na floresta começou a sumir, teria que dar um jeito naquele e correr para salvar Hain. Se voasse, o caçador acertaria outra flecha em seu corpo, e dessa vez o mataria. Um corpo morto é inútil para salvar seu filho.

O caçador lhe encarava com olhos diabólicos. Havia ferimentos em seus braços desnudos, advindo de autoflagelo para marcar sua musculatura forte e causar medo na presa. Baixou as mãos e cerrou as asas para se entregar. Soren mastigou os dentes para aguentar a pontada de dor no ombro no movimento.

-São fáceis demais, essa sua tribo. – disse o homem com o sorriso sumindo de seu rosto, desanimado com a entrega de Soren. A cabeça estava escondida com pedaços de pano enrolados, mas ao lado onde permanecia encoberta, se via fios negros.

– Prefiro a tribo dos falcões, são mais ariscos. Não gosto de vocês que vem de cima. – O malaki não entendia a necessidade de conversar com a presa. – São putinhas. Eu respeito os falcões, até as crianças se defendem, os seus, hum, saem correndo floresta adentro! – escarneceu.

O ódio alimentou o espírito de Soren. Esqueceu naquele momento da passividade dos ensinamentos de Dorah, desejava encher a face do caçador de porrada. Seu rosto estava em brasa, quando se jogou sobre homem. O caçador pego de surpresa caiu com Soren sobre ele. A flecha retesada foi largada, e o malaki ouviu o zunido do projétil em sua orelha esquerda. Naquele instante seus rostos inundaram de sangue e adrenalina. O caçador tentava tirar o corpo do malaki sobre si enquanto Soren esgueirava o braço ferido até a aljava nas costas dele. Esticava as asas para trás evitando que fossem agarradas. Sua boca emitia gemidos de esforço. O caçador gargalhava de prazer mostrando os dentes amarelados e apodrecidos por entre seus os lábios finos. Era isso que desejou desde que se viu a sós com o alado - uma boa caçada.

No alto Lobus assistia a luta, cintilando com as estrelas que compunham seu corpo.

Os dedos do malaki estavam tão próximos de uma flecha no momento em que sua força já não era suficiente. Seu corpo foi jogado de lado como uma saca de arroz. O ombro ferido ardeu no encontro com o chão. Levantou imediatamente segurando um urro de dor. Soren tinham em mãos o resultado de seu esforço, uma flecha surrupiada. Um golpe apenas e devolveu ao ombro do homem ainda deitado, o favor que fizera ao seu próprio. O fio da flecha se enterrava em sua carne espalhando o sangue em seu caminho. Farpas de madeira cravaram na mão do malaki, muito pequenos em comparação ao pedaço pendurado em seu próprio ombro.

Os MutiladosOnde histórias criam vida. Descubra agora