Capítulo 3

15 0 0
                                    


Alfarir e Bodami seguiram encurvados para o alojamento. O malaki tentava elevar suas asas para que não atritasse com o chão. Mesmo com sua estatura pequena, era o mais incapaz de se camuflar naquele momento. O barracão do alojamento dos guardas foi feito para abrigar escravos. Kadima construíra dois galpões para esse fim, porém com a expansão da fazenda e do número de mão de obra, ele resolveu amotiná-los no casarão onde Bash estava indo, e deixar o outro livre para seus guardas. Por isso era um lugar com pouca abertura para a passagem de ar, as paredes eram grossas e a porta, reforçada.
Os dois encontraram uma viga de madeira do lado direito do alojamento. Puxaram o objeto com dificuldade e cautela, pois não podiam fazer nenhum ruído mesmo carregando algo tão pesado. Com caretas de esforço e o suor descendo em cascata de seus rostos, colocaram a madeira na porta como amparo, evitando sua abertura por dentro. Puseram mais dois esteios e um último mais fino entre os puxadores de ferro dobrados nas portas.
-Onde está o óleo que você falou? – perguntou Bodami.
-Vamos pegar, venha.
Seguiram para a oficina. O lugar era fechado, e ao contrário do alojamento, sua parede era de estacas de madeira. Tinha o moedor de trigo ao centro, algumas mesas para o trabalho de serraria. No fundo Kadima guardava dois barris largos de óleo. Seu uso era diverso, desde a manutenção das engrenagens dos moedores de trigo e das gaiolas, combustível de candeeiros, até como besunte no corpo dos escravos quando desejava torna-los mais belos à vista na hora de vendê-los.
Encontraram vasos de barro, e os usaram para enchê-los do líquido. Despejaram o óleo nos entornos do alojamento, fazendo várias viagens e evitando jogá-lo na porta de madeira. Quando havia uma quantidade suficiente de combustível envolta do barracão, passaram a esvaziar os jarros dentro do alojamento pelas aberturas no alto das paredes.
Dessa vez eles não se importaram mais com o barulho que faziam. Os guardas começaram a acordar. Minutos de buchicho no interior, a gritaria se iniciava. A porta passou a ser esmurrada com força enquanto os dois sorriam terminando de despejar o último jarro de óleo. quando todos os escravos estavam livres do lado de fora, Bash e Jahari apareceram com seus olhares postos sobre Alfarir.
-Eles acordaram. – disse o grandalhão, nervoso. A noite límpida deixava estrelas frias brilhando no topo de sua cabeça.
-Sim. – Ria Alfarir.
No alojamento os homens gritavam, na maioria xingamentos, acreditando que que os guardas em ronda estivessem fazendo algum tipo de pilhéria. “Abra essa porta, foliões de merda!” era a frase que mais se ouvia.
-Você me dá medo, Alfarir. – Bash temia a expressão de alegria do companheiro.
-Eu sei. – Começou a gargalhar enquanto jogava a última lata no teto do lugar. Tirou do bolso um par de pedra-fogo, juntou um pouco da palha no chão. Os homens gritavam do lado de dentro, e a porta chiava com os baques que produziam contra a porta.
-Eles vão escapar... – disse Bash.
-Não vão. Já tentaram uma vez. – disse Alfarir, com a palha chamuscando no chão. Ainda haviam lembranças daquele dia, quando ainda jovem, em que os escravos planejaram uma fuga. Foram açoitados quase até a morte, quando o plano deu errado.
-Não é legal poder atirar fogo em coisas e ver as labaredas queimando o rabo dos guardas?
Seu companheiro não riu, permaneceu como um poste olhando o malaki atirar mais dois chamuscos de fogo no teto do lugar. Em pouco tempo o fogaréu se alastrava através do líquido viscoso e brilhante espalhado por todos os cantos. O combustível alimentou as labaredas com rapidez, e tão logo se iniciava o espetáculo que Alfarir desejava ver. Fechou os olhos para tornar mais nítido os sons daquela sinfonia macabra. Podia enxergar através da balburdia, a posição de cada homem do lado de dentro, o som tornava-se seus olhos. Tão forte era esse poder que o malaki quase podia sentir na pele a queimadura do fogo que se alastrava cruel naquele cômodo.
Ouviu sons de lâminas de espadas no contato com a porta, no desespero dos guardas para abri-la. Tapetes de dormir eram agitados na tentativa de abafar o fogo. Um homem que dormia perto da abertura na parede, estava empapado de óleo, e o corpo foi tomado pelo fogaréu. Eram gritos agudos, ardidos como a pele que enrugava pela quentura. Outro lutava para apagar o fogo que chamuscava seu cabelo. “Abra essa porra! Tem fogo!”, gritavam uns. “Socorro!” pedia outro em desespero. Identificou o dono da segunda voz. Era um guarda antigo, um dos piores. Focou nele por um tempo, deleitando-se com os pedidos de um demônio que tivera sempre um porrete cravejado de pregos nas mãos. Passou sua vida naquele lugar com o desejo de usar aquela ferramenta de castigo, contra as costas de seu dono. Mas a perspectiva que se dava agora, com seu pedido de misericórdia lhe confortava tanto quanto.
Se pudesse o malaki permaneceria assistindo aquilo, porém, não demorou muito para o cheiro de queimado somando-se aos gritos desesperados, chamassem atenção. Cinco homens apareceram pelo jardim, vindos da entrada da mansão.
-Alfarir, se esconda. – disse Bash.
Sobrevoou para cima do telhado do mirante. Do alto observou Bash abatendo dois homens enquanto girava o martelo no ar. Bodami e Jahari lutaram juntos como dois braços de um mesmo corpo, abatendo os outros três. Duas mulheres surgiram de dentro do casarão e atravessaram o jardim hexagonal que levava ao pátio. Gritaram, colocando as mãos sobre a boca e num pinote nervoso correram para dentro.
Quando os homens foram abatidos, Bash entrou com os rapazes para dentro da mansão. Alfarir deixou o topo do mirante, voando para o portão leste para pousar na frente dos escravos assustados com sua aparição. Às suas costas se estendia as plantações de arroz, com a linha do rio brilhando com o refletir da pouca luz. O malaki a tudo via com tons de cinza, por haver luz insuficiente para colorir a paisagem.
Cada rosto de olhos arregalados, uma história própria que convergia para aquela merda de lugar. Mutilados e ilheenses vestiam-se com trapos de algodão sujo, alguns com buracos que deixavam a pele dos escravos à mostra. Havia nos semblantes deles marcas que iam muito além daquelas que carregavam na superfície. Rangeu os dentes ao se dar conta de tanta miséria. Algumas crianças faziam parte daquele bando, e todas elas já eram marcadas na mão com o ferro de Kadima.
Depois de olhá-los, acordou de repente em desespero. Deveria procurar seu irmão no meio da multidão. Adentrou o grupo empurrando os escravos que afastavam assustados de seu toque. A cada ombro que ia para o lado, cada face que vasculhava, um pouco de sua esperança ia embora.
-Saia! – gritava o malaki para os escravos. Depois de um tempo, em desespero começou a empurrá-los. – Saia da porra da minha frente!
Já havia vasculhado todos, e nada. Bash e os rapazes, depois de um tempo surgiram pelo portão.
-Alfarir. Alfarir. – O homem começou a caçá-lo entre os escravos. O encontrou olhando o horizonte, além do Thal Tavaim. Seus olhos entre os furos da máscara eram fendas abatidas. Atrás Bash repousou sua mão em seu ombro, e o malaki permaneceu alheio ao toque.
-Seu irmão não está aqui.
-Parece óbvio, não acha? – fez uma pausa profunda, e com a voz em sofrimento prosseguiu – Depois do que me disse que Adarab fez na cara dele, pode ter certeza que eu o encontraria até mesmo no inferno.
-Eu sinto muito. – Bash estava realmente condoído. Era um homem de sentimento bom, se pegava fácil em empatia. Alfarir encarou o amigo. Atrás dele, para além do muro a fumaça levantava.
-Bash. – disse – Atravesse os fugitivos no rio. Leve-os para o deserto. Você sabe o caminho. Eu tenho algo para resolver.
-O que vai fazer?
-Procurar Syd.
-Eu não o achei, vasculhei a mansão inteira!
-Ah ele está se escondendo. Conheço o tipo dele. – deixou um sorriso maligno tomar sua face. – Eu vou acabar com sua raça.
Fugiu voando para além do muro.

Olá leitor! Como você está? Espero que sua leitura tenha sido prazerosa ^^

Se gostou do que leu até aqui, bem, peço que dê um voto e que comente algo que te impactou. Fiquem à vontade em minha casa. Se acharem algo que precise ser apontado, por favor, ficarei feliz com uma crítica bacana. Como muitos, estou me construindo como escritora e sua opinião será sempre bem-vinda! Boa leitura!

Os MutiladosOnde histórias criam vida. Descubra agora