O restante da propriedade era guardado pelo muro extenso e retangular. Em suas arestas seu antigo senhor construíra torres com mirantes recobertos por telhados de folhas de palmeiras. Alfarir seguiu seu voo cobrindo-se com a colina da esquerda. Desceu no teto em formato de pirâmide do primeiro mirante, resultando num barulho seco, mesmo com o esforço em manter o silêncio em seu pouso.
-O que foi isso? – ouviu a voz de um dos guardas abaixo.
-Não sei. Não tem nada envolta. – respondeu o segundo.
Alfarir uniu os lábios e emitiu alguns sons agudos.
-Ah, morcegos malditos! – concluiu uma das vozes. Acreditariam em qualquer coisa para manter o ócio.
O malaki se deixou observar as posses de seu antigo senhor por alguns instantes. O casarão rústico pregado ao muro principal, era feito de pedra areia em duas plataformas retangulares e um mirante pouco usado em cima. As escadarias de cada lado do patamar da entrada foram enfeitadas com ladrilhos esverdeados, assim como o novo pórtico que dava acesso a casa. Refletiam a mesma cor intensa. Talvez a felicidade de Kadima pela descoberta fora tal, que resolvera ornamentar a propriedade inteira com peridoto.
O único objeto que escapou do adorno foi o Pilar do Sino, mantendo como um quadro pintado no passado, seus entalhes sob sua superfície de pedra esculpida. As imagens representavam a deusa da morte. Com os archotes iluminando o local do pilar, Alfarir revia a imagem da mulher de cabelos soltos, com lágrimas tristes saindo dos olhos e um sorriso dissonante nos lábios. Alegria e tristeza na morte.
Atentou-se a seu plano, afastando as lembranças que lhe tocavam a memória. O que importava estava por vir, ali, acima daquele telhado. Levantou a túnica negra, e retirou do cinto que segurava sua calça de linho, um frasco de vidro. Levou o objeto ao alto e encarou feliz seu conteúdo. Não era nenhum líquido que trazia consigo, apenas três escorpiões que se amotinavam, revirando os corpos amarelados e levantando os ferrões em resposta aos solavancos da manipulação do falcão.
Depois de encará-los um tempo, Alfarir cerrou os olhos. Respirou fundo trazendo toda sua concentração à audição. E então ouviu. Acima do telhado, o malaki via com outros olhos o mundo que o cercava. Cada ruído era uma imagem em movimento, interpretada por sua mente treinada a dar paisagem a qualquer perturbação sonora. Todos os sons se apresentavam aos seus ouvidos de uma só vez, numa algazarra intensa. Quando criança era incapaz de manter o foco, o que resultava em fortes dores de cabeça no final de um dia de treinamento. Com o tempo, ele dominara o dom.
Filtrando a barulheira, pode identificar o estardalhaço de uma coruja abrigada numa oliveira, centrada no jardim hexagonal do fundo da casa. Alfarir ouvia as bicadas da ave repuxando num ruído molhado, as entranhas de um rato. O pisoteio dos escorpiões no vidro lhe era forte e agudo, e o cricrilar dos grilos como uma multidão de pessoas conversando sem parar.
Por fim lhe veio a respiração pesada dos guardas abaixo. Um deles estava sentado em uma cadeira, recostado a murada do mirante. Seu fôlego era difícil, o vento saindo pelas narinas faziam um assobio fino, audível apenas ao malaki. Não estava dormindo. Talvez estivesse doente, ou era gordo demais para respirar direito. A primeira opção era a mais acertada, tendo em vista as doenças que assolavam as terras de AlGorab,
A respiração do segundo guarda estava dificultosa tanto quanto a do companheiro. De pé, o homem olhava para fora da propriedade. Doentes, o serviço dos escorpiões ficaria mais fácil. Abaixou a cabeça de modo a se esconder da visão dos guardas, com o tronco atritando com o telhado. Encontrou-os tal como a sua audição determinara. Orgulhoso com suas capacidades de dedução, abriu o frasco e jogou os aracnídeos num canto do mirante, evitando chamar atenção. Subiu e fechou os olhos.
-Ai! - falou o guarda de pé.
-Que foi?
-Você deixou os pregos espalhados daquela vez, não foi?
-Não. – Respondia o sentado, com preguiça de prosseguir uma conversa.
-Eu disse que deixou. Caralho, acabei de pisar em um! Ou foi uma abelha com tara por pés?
-Abelhas não picam de dia. Para de ser... Ai! – anuiu o que estava sentado - Alguma coisa me picou. Olha o chão!
-Ai! Tá doendo essa merda!
Depois pararam de falar. Sons de engasgo acompanhado de um ruído oco ao caírem no chão. Os pulmões inchavam de sangue. Os músculos paralisavam enquanto tentavam a muito custo agarrar-se ao ar. Sacudiram numa luta intensa para respirar enquanto Alfarir ouvia o atrito seco de seus corpos com a superfície do mirante. Depois o alarido cessou de vez.
Soltou um assobio de coruja, dando sinal para o avanço de Bash. Eles deveriam chegar por perto arrastando os corpos pelo muro, escondidos da vista do mirante.
Saiu do telhado voando para fora, procurando se esconder. Fez um pouso suave na segunda torre, que ficava na parte de trás da propriedade, ao lado esquerdo do portão sul. Ali perto, por dentro do terreno, estava o armazém e a oficina com suas paredes recostadas no muro. Uma vez mais fechou os olhos. Segurou a respiração e ouviu o barulho de seu próprio coração, batendo calmo. A coruja já estava satisfeita e deixava de lado a carcaça do rato. Escutou o balburdio dos insetos em arbustos próximos, como uma cantoria frenética em seu ombro. Quando sua atenção retornou aos humanos, identificou dois guardas, um sentado pescando de sono, com sua respiração num ritmo pesado e abafado. Outro de pé, permanecia acordado dando tossidelas que arranhava com aspereza a garganta, olhando para fora da propriedade no horizonte escuro da noite.
Alfarir abriu os olhos, para observar o outro mirante, à direta do portão. Foi a vez de usar a visão primorosa. Sua pupila estreitou-se, e de repente a imagem daquele ponto distante se tornou nítida e próxima. Via os detalhes dos botões nos coletes dos guardas, e suas mãos sobre o pomo esférico das cimitarras penduradas no cinto. Seus corpos eram magros e o padrão seguia como nos outros mirantes, onde os homens mantinham-se atentos para fora da propriedade, na crença de que o perigo jamais viria de dentro.
Em silêncio alçou voo e pousou no telhado da oficina. Caminhou sorrateiro para perto do muro principal, que estava a um metro e setenta de altura. Dez centímetros mais alto que ele. Se tentasse voar dali, a batida forte das asas chamaria a atenção. Deu um pulo leve. Seus dedos alcançaram a beirada do muro e seus pés procuraram por aberturas na parede. Demorou na escalada até chegar no espaço entre a beirada da torre e a murada do mirante, para que seu avanço mantivesse silencioso. Permaneceu agachado um tempo até levantar o corpo.
Tão próximo estava das costas do guarda dorminhoco que podia beijá-lo. A cabeça do homem pensa em um sono pesado foi de maneira abrupta elevada para cima. Alfarir segurou com força sua mandíbula evitando que gritasse. Já tinha na mão direita uma faca de arremesso. A onda de choque do guarda o fez movimentar os braços em alarde. Aconteceu rápido. Um corte na pele da garganta precedido por um gemido seco e abafado da vítima. O sangue viscoso e vermelho desceu pelo corte preciso como de um cirurgião.
O outro companheiro se virou surpreso, com a corda do sino suspensa ao seu lado. Não teve tempo de soar o alarme. A dor que sentiu com a lâmina arremessada na garganta fez seus globos oculares saltarem, a ponto de parecer que correriam de seu crânio. Elevou as mãos ao pescoço e caiu de lado, impedido de produzir um gemido com as pregas vocais estouradas.
Entrou no mirante. As pernas doíam por ter forçado o equilíbrio naquele espaço. Não tinha tempo de avaliar os corpos. Mesmo com pressa não conseguiu retirar seus olhos por sobre aquele equipamento que guardavam no centro do chão. Roldanas e engrenagens de madeira, em uma base quadrada, uniam-se para formar aquele objeto odioso. No topo um estribo retilíneo subia como uma pequena rampa, acompanhando uma corda esticada. Do lado direito havia um gatilho giratório, que soltava a cada minuto um projétil de rede dobrada, para se abrir no ar e engolir os alados em pleno voo. Uma versão menor e com menos munição do que os adestradores chamavam de gaiolas. O nome era uma homenagem anedótica aos malaki. Rangeu os dentes olhando os desenhos de cães nas laterais daquele objeto. Abandonou o mirante, antes que ateasse fogo àquele negócio.
As outras duas torres foram mais fáceis que as primeiras. Matou os guardas com a mesma facilidade que um cozinheiro experiente prepara um faisão ao molho rayhan. Já não contava mais as mortes, mas mantinha a atualizado o número de escravos que libertava. Isso aliviava o peso em seu coração sobre as mortes que carregava. Se os deuses existissem, quem sabe, o juízo lhe seria menor.
O terreno envolto dos muros ficou livre das sentinelas. Teve que lidar com homens pouco treinados, frágeis e sonolentos. Terminado com sua parte, desceu num voo raso para o lado de fora do portão dos fundos da propriedade. Encontrou os demais companheiros esperando seu sinal.
-E aí? – perguntou Bash, aliviado por vê-lo.
-Mirantes livres. Estou sem facas, tem alguma?
-Por que não pegou de volta dos corpos?
-Por que temos bastante e dentro do casarão vamos encontrar alguma coisa que valha a pena trocar por essa velharia que a gente trouxe.
-Tá! – disse Bash alarmado com a calma do falcão. Entregou um conjunto de lâminas, embrulhado numa trouxa de couro. – Você conhece a propriedade melhor que eu, sabe como abrir os portões?
-É um portão, só precisa empurrar depois que tirar a tranca.
-Nenhum mecanismo?
-Nenhum. – Alfarir colocava cada faca nas entradas de seu cinto. Quando terminou jogou o embrulho no chão.
-Com uma defesa de merda dessas, fico com medo que seja uma emboscada. – Disse o grandalhão depois de um tempo em silencio.
-Syd não teria inteligência para isso. - Riu Alfarir do filho de seu antigo amo, um pouco mais velho que o malaki. Não era bom em mais nada além de dar ordens e não tinha metade das habilidades de falcoaria de seu pai.
Foi quando seu olhar se voltou aos rapazes que os acompanhava. Jovens demais para matar, mas corajosos demais para não virem. Tinham na mão direita a mesma marca que tivera um dia, o selo de Kadima. Quando se viu livre, o malaki ranhou a própria pele para liberta-se da marca. Nenhuma dor lhe fora tão libertadora quanto aquela. Quando Bash juntava o armamento para o assalto os rapazes estavam resolutos sobre sua participação. Disseram que teriam que ser amarrados às pedras do refúgio, para que seus pés não o seguissem. O malaki não entendia tamanha determinação, e Bodami, o mais velho deles foi quem explicou suas motivações.
“Nossa mãe está lá”.
Ele e Jahari, seu irmão mais novo, vieram juntos com sua mãe de uma das ilhas do Arquipélago do Baobá. Tinham dezessete e vinte anos quando foram levados de navio até o Rio Eridan para a casa de Kadima. “Eles fazem atrocidades com os escravos” confessou Jahari, “nossa mãe é forte e por isso a colocaram na maldita mina. Só faltar rasgar suas pernas com tanto açoite!”. O amor dos dois pela mãe era o mesmo que o levara até ali. Não conseguiu lhes dizer não.
-Façam isso dar certo! – Ordenou se afastando da vista dos companheiros.
Pousou do lado de dentro do portão. Algumas guaridas feitas de um cômodo móvel de madeira com uma abertura para a visão, se espalhavam pelo pátio. Alfarir estreitou a pupila, e usou sua visão apurada para confirmar que estavam vazias. De costas para o portão leste, do lado esquerdo viu o barracão dos escravos. Do direito a oficina no encontro na quina dos muros e mais adiante o alojamento dos guardas. No centro do pátio ficava o barracão dos viveiros de pássaros. Um arrepiou lhe dominou com a visão daquele lugar. Era onde Kadima guardava suas aves de falcoaria, dentre seus animais treinados ficou Alfarir durante anos. Fechou os olhos para ouvir o grasnar das aves dentro do lugar, apenas para ter certeza de que estava vazio. Era de seu conhecimento que Kadima viajara para Alkiba para vendê-las á Sá AlGorab, e se alguma tivesse ficado para trás, ele a soltaria. Nenhum som veio dali.
O portão leste era de madeira, bem espesso e pesado, preso por um trinco grosso. Avaliou as dobradiças de ferro para ver o estado de ferrugem. Elas iriam chiar com certeza, então se limitaria a abrir uma pequena fresta, por onde passaria cerca de quarenta escravos rumo à liberdade. Quando puxou a maçaneta, o grunhido da porta não foi capaz de acordar ninguém. Os três negros entraram pelo espaço, de olhos arregalados e compenetrados.
-Vou libertar os escravos, conversar com eles para que não se alardem. – Cochichou Bash fitando o companheiro malaki com um pouco de receio. – Vai dar conta do alojamento?
-Tenho um plano. – Alfarir deu um sorriso maldoso. – Bodami, venha comigo. – disse o malaki para o rapaz mais velho.
-Bom, acho que vou deixar você se divertir.
Bash se encaminhou com Jahari para o galpão dos escravos.Olá leitor! Como você está? Espero que sua leitura tenha sido prazerosa ^^
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Os Mutilados
FantasyHain e sua tribo fugiram voando da perseguição que sofriam no Continente de Cima. Com suas asas admiradas como artigo de luxo, suas mãos desejadas para o trabalho escravo e seu sangue precioso para realização de rituais, os olhos dos adestradores, c...