– Acredita que eu liguei pra ela o dia inteiro ontem, Mark? Quando eu estava desistindo ela atendeu.
– E ela aceitou? Eu não te disse que ligaria? – Mark parecia intrigado.
– Mas eu decidi ligar e aparentemente ela aceitou. Disse que vem amanhã.
– Amanhã? Como assim amanhã, Stef?
– Ela é de poucas palavras, pelo menos ao telefone. Achei melhor marcar pessoalmente.
Mark parece suspeitar de algo, talvez porque havíamos combinado que ele ligaria para ela. Mas eu queria que fosse algo especial, que ela sentisse que havia partido de mim, mesmo que fosse mentira, afinal a ideia partiu dele.
Estar em processo criativo costuma ser doloroso. A arte é dolorosa porque exigi demais, do corpo, da alma, da mente, é quase como um sacrifico diário, mas é gratificante, mesmo quando não existe nada e troca.
Eu e Mark estamos sentados sobre a grama do jardim, ele dedilha as cordas de nylon do meu violão, enquanto eu penso na minha vida, carreira, família, Taylor... Ainda tenho o anel de noivado, foram cinco longos anos, não dá para simplesmente apagar todo esse tempo. Lembrar dele ainda dói, talvez eu não tenha superado ainda, talvez nunca supere. Penso nele quase sempre, me pergunto o que deu errado em algo que parecia tão certo e tão sólido.
– Já sabe o que vai compor com ela? – Mark interrompe meus pensamentos.
– Com ela quem?
– Florence Welch, talvez? Em que mundo você está?
– Qualquer coisa vai ficar boa na voz dela.
– Nenhuma ideia?
– Algo para as mulheres, mas não sei ainda.
Encosto-me em seu ombro. Mark além de bom produtor é um ótimo amigo, ele sabe me ouvir. Estamos tão conectados musicalmente, que ele parece entender o que eu sinto e me ajuda a por pra fora em cada verso, cada estrofe, cada letra que compomos juntos é quase que um pedaço de mim.
Acendo um cigarro. Eu realmente preciso parar de fumar, mas se esse fosse o meu único vício, talvez tudo fosse diferente. O problema maior é o prazer, talvez esse seja o meu maior vício, prazer pela arte, pela música, pelo amor, pelo álcool, por esse simples cigarro... Os últimos anos foram difíceis, acumulei transtornos psicológicos, criticas, passei por um doloroso fim de relacionamento, mas estou determinada a voltar do jeito que eu queria.
Mark toca Piece Of My Heart, tentando imitar, sem sucesso, o timbre rouco da Janis Joplin.
"Eu não te fiz sentir como se você fosse o único homem? Sim!
Eu não te dei quase tudo que uma mulher possivelmente possa dar?
Querido, você sabe que sim!
E a cada vez digo a mim mesma que eu, bem, acho que tive o bastante."
– Isso é horrível, você estragou a música – interrompo-o rindo.
Essa letra me lembra de coisas que eu precisava esquecer.
– É um clássico, Stefani.
– Mark, do que ela gosta?
– Ela quem? Florence? Que tipo de pergunta é essa?
– Esquece...
Mark a conhece muito melhor do que eu, já que nos encontramos apenas uma vez, casualmente e a anos atrás. Quando ele disse que nossas vozes combinariam perfeitamente em uma música, custei a acreditar. Nunca tinha escutado uma voz assim, é forte, potente, mas doce ao mesmo tempo. Sem dúvida uma das melhores, se não a melhor cantora que já escutei e talvez isso seja demais pra mim.
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Just Another Way
FanfictionO que acontece quando dois talentos musicais se unem? Uma ligação inesperada é um indicio de que durante um processo criativo tudo pode acontecer.
