A arte de pensar claramente

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Observo o tempo nublado da sacada do hotel, o frio de Nova York me lembra de Londres. O quarto está meio bagunçado, ainda não tive tempo e nem cabeça para desarrumar as malas. Caminho em direção ao quarto, sento-me na cama e solto um longo e aliviado suspiro. É engraçado como toda aquela situação de ontem havia me deixado nervosa; na verdade eu ainda estou uma pilha de nervos, mas não tanto quanto ontem, de certa forma ela havia me tranquilizado.

Pego o celular em minha bolsa, ligo para Felix, mas ele não me atende... Deve estar ocupado, ou talvez só não queira me atender, é típico dele querer pagar na mesma moeda. O problema é que eu não tenho essa necessidade de saber dele a toda hora, geralmente preciso de tempo para sentir saudade, coisa que ele detesta.

Tento ligar para o celular de Isabella, na segunda tentativa, ela finalmente me atende:

− Alô? − Isa parece sonolenta.

− Dormindo uma hora dessas? Não está cedo ai? − questiono-a.

− Florence? Nossa... Como está por ai em Nova York?

− Ah, aqui está nublado, meio frio e...

− Me poupe, Flo − ela me interrompe − Quero saber como estão as coisas com a Gaga, o que vocês fizeram?

− Nada ainda − falo sem jeito

− E como ela é? Vocês já se encontraram?

− Sim, fui na casa dela ontem...

− E como foi? − Isabella insiste.

− Vamos trabalhar juntas em uma canção... Para o novo álbum dela

− Caramba! Isso é ótimo, Flo − Isabella parece eufórica.

− Acredita que ela sabe cozinhar? E tem o rosto do Bowie tatuado na barriga – Falo baixo, tentando disfarçar a minha empolgação.

− Ah é? E o que mais? - Isabella diz em tom de malícia.

− Só isso... Começamos amanhã. E por ai? Tem visto Felix?

− Não, não vejo o Fe desde a festa... − Isa responde − Mas vamos falar de você, vai fazer o que hoje?

− Nada, ajeitar essas coisas da mala, ler um livro e esperar o domingo terminar.

− Quanto desânimo, Florence − Isabella ri - Vou desligar, preciso comer alguma coisa.

− Vocês beberam ontem, não foi? – indago

− Socialmente... Me liga qualquer coisa, ok?

− Socialmente? Que piada − solto uma gargalhada − OK, a gente se fala.

Desligo o celular e me curvo sobre as malas ao lado da cama, retirando minhas roupas e livros. Eu definitivamente não estava desanimada, muito pelo contrário, se fosse por mim estaríamos compondo agora mesmo, mas eu costumo respeitar o tempo das coisas e não quero que ninguém perceba a minha ansiedade. Durante a noite eu pensei em algumas coisas que talvez ela goste, mas é difícil tentar adivinhar seus gostos... Gaga é o tipo de artista que muda o tempo todo, e isso é uma das coisas que eu mais admiro nela. Na verdade, o que eu não admiro nela? Essa é grande questão.

Depois de esvaziar as malas, me levanto, olho para as coisas em cima da cama, será que eu realmente deveria arrumar tudo isso? Talvez eu nem fique aqui por tanto tempo. Decido deixar tudo como está, pego qualquer roupa e vou para o banho.

Banheiro de hotel é um lugar intrigante, porque toda essa calmaria me faz lembrar de casa. O barulho da água caindo sobre o meu corpo me tranquiliza de uma forma inexplicável, quase que terapêutica. Na verdade Viver de hotel em hotel é sempre tranquilo, eu me adapto fácil em qualquer ambiente, fácil até demais, difícil mesmo é voltar pra casa depois de meses na estrada... Desacelerar, recolher e arrumar toda bagunça é quase como recomeçar.

Just Another WayHistórias para pegar e não largar. Descubra agora