Capítulo 6

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    A última sexta-feira letiva daquele novembro amanheceu mergulhada em um fino e níveo nevoeiro formado no decurso da madrugada para os residentes da cidade de Oxford. Toucas e casacos coloridos de pedestres pintavam o cenário em que a vida acontecia fora das janelas do segundo andar do autocarro vermelho que seguia devagar pela Hythe Bridge Street rumo à estação de trens.

    Tina observou uma pequena nuvem de vapor condensado de sua respiração formar-se em seu rosto enquanto esfregava as mãos cobertas pelo par de luvas escuro em uma tentativa de amenizar o leve tremor que tomava conta das extremidades de seu corpo. As temperaturas que beiravam a zero ardiam-lhe a face mesmo envolta pelo cachecol, protegida pelo casaco de algodão e imersa sob dois suéteres de linho e lã bastante espessos. Newt escondia as mãos desprotegidas dentro dos bolsos do pesado casaco azul escuro e abafava sua respiração em seu cachecol preferido enrolado em seu pescoço. Distraía-se pelas luzes já acesas no interior das construções, naquela tarde de céu bastante escuro, quando não repetia com os olhos o percurso realizado pelos cadarços intercalados do par de botas incrivelmente estreito ao seu lado.

    Após contornar uma segunda rotatória da grande Park End Street, o veículo adentrou as proximidades da lotada estação de trens de Oxford, obrigando aos passageiros restantes a enfrentarem as congelantes rajadas de vento que corriam pela paisagem descoberta daquela vizinhança.

    O expresso que levaria os estudantes até Londres para o período de festividades fez o trajeto de pouco mais de uma hora abarrotado pelas bagagens que usualmente duplicavam sua quantidade naquela época. Malas encontravam-se estreitando a passagem pelo corredor, mochilas ocupavam assentos vazios ao lado das pessoas que conversavam animadas sobre os planos para as férias de inverno.

    Parecendo pouco afetados pela vozearia que espalhava-se pelo trem, Tina debruçava-se sobre as páginas do best-seller de fantasia que lia avidamente enquanto Newt concentrava-se em elaborar os dois primeiros parágrafos sobre a última espécie a ser catalogada em seu livro. Embora exaustos, ambos eram tomados pela sensação agradável de retornar para casa após o triunfo do primeiro trimestre daquele ano letivo.

    Distraído pelas próprias anotações e satisfeito em finalmente estar concluindo um trabalho de três anos, Newt pouco importou-se em desviar sua atenção para a moça negra que confidenciava, sorridente, os desfechos de um final de semana já vivido a três ouvintes animadas em um compartimento poucos metros à frente de seu próprio.

    Mais do que nunca, a estação Paddington em Londres encontrava-se repleta de passageiros que cruzavam com bastante pressa o saguão principal rumo aos seus respectivos locais de embarque, trombando com quantidades consideráveis de pessoas durante o zigue-zague realizado. Tina e Newt sentiram-se imensamente aliviados ao passar pela catraca de embarque da plataforma praticamente vazia do expresso de Canterbury das cinco horas.

    Arriscaram conversar sobre coisas triviais mesmo com o tilintar incessante de suas mandíbulas, a franja sob o capuz do casaco do rapaz e os cabelos da moça voando na direção do vento congelante que adentrava o corredor de embarque. Retomaram as atividades da viagem anterior assim que ocuparam os tradicionais assentos ao lado da janela do trem que deixava a capital.

    Newt virou uma das últimas folhas restantes no caderno de capa verde para escrever, em seu verso, as considerações finais acerca do processo de naturalização e adaptação da espécie das salamandras-de-fogo ao território e clima britânicos, dando por finalizado o desenvolvimento de seu manuscrito. Folheou rapidamente, com um sorriso nos lábios, algumas das centenas de páginas recheadas da mesma caligrafia fina e cursiva, delineada em diferentes tons de tinta das várias canetas utilizadas ao longo do processo. Na iminência de comunicar à amiga seu feito, entretanto, encontrou a figura adormecida sobre o cotovelo apoiado à mesa entre os assentos.

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