CAPÍTULO 4

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Assim que disse os nomes dos pais de Betty na recepção do casarão histórico que abrigava o hotel em que estavam hospedados, percebi a mudança de atitude. A postura profissional da recepcionista de terninho preto se amenizou e uma expressão de empatia substituiu o brilho impessoal em seus olhos.

– Eles estão em nossa Suíte Jardim – explicou, e notei que até o tom de sua voz se suavizou quando ela se deu conta de que eu era uma personagem daquela tragédia. – Estão à sua espera?

Ela correu uma unha perfeitamente pintada por uma lista de nomes. O meu estava registrado abaixo do nome de uma das empresas funerárias da cidade e acima do de um florista local.

– Sim, obrigada. Bárbara López. É o meu nome.

A suíte era no térreo, em uma ala que se abria para a área externa muitíssimo bem-cuidada. Mas eu não acreditava que os pais de Betty tivessem nem mesmo relanceado o olhar para fora da janela desde que tinham chegado. Embora eu os conhecesse desde pequena, Alejandra era mais próxima da família de Betty que eu, portanto foi surpreendente ser envolvida pelo largo abraço do pai de Betty no momento em que a porta se abriu. Ele sempre pareceu uma figura distante e indiferente, e Betty nunca explicou direito em que ele trabalhava. Dizia apenas que era "alguma coisa no centro financeiro". Obviamente era algo que lhe exigia muito tempo e dedicação, pois eram frequentes suas ausências nas comemorações escolares e até mesmo em algumas festas de aniversário. Por isso eu sempre o vi como um indivíduo frio e distante. Foi um choque ver as lágrimas correrem pelo rosto de Francis quando ele por fim me libertou de seus braços.

Foi o que bastou.

Ver sua dor franca e escancarada e saber que não havia nada que eu pudesse fazer ou dizer para aliviar aquele sofrimento foi como uma facada em meu peito.

Ele apertou minhas mãos com tanta força que doeu, e suas lágrimas continuaram a cair, e ele nada fez para enxugá-las.

Uma torrente como aquela teria de seguir seu curso, que ainda não estava nem perto de se esgotar.

Eu me vi pensando em todas aquelas ocasiões em que a adolescente Betty censurou o pai ausente, que, segundo ela, sempre priorizava o trabalho, em vez da família.

Será que onde está você consegue vê-lo agora, Betty?

Pode ver quanto ele está sofrendo?

Eu torcia muito, muito para que ela pudesse.

Linda estava destruída.

Ela era uma dessas mulheres que sempre aparentavam ter acabado de sair do salão de beleza. No portão da escola, entre as mães que vestiam calça jeans e tênis, ela se destacava como se fosse um diamante em um bazar, com as roupas imaculadas e os sapatos de salto alto de grife. Betty era a criança que sempre pareceu ter tudo: a casa grande, os carros luxuosos e os pais glamorosos. E sob a pele da mãe perfeita de comercial de TV, havia uma mulher que adorava a filha única.

Era difícil reconhecê-la na pessoa desgrenhada encolhida no sofá estampado da suíte.

Para começar, ela aparentava ser uns trinta anos mais velha do que se imaginaria para a "mãe de Betty" e parecia arrasada de uma forma que era difícil de acreditar que um dia se recuperasse.

Fui até ela, mas não consegui encontrar palavras que pudessem oferecer um único instante de consolo. Então eu só peguei sua mão e a segurei, quase como tinha feito com sua filha duas noites antes.

Quando liguei naquela manhã para combinar a visita, estava insegura em relação à maneira como me receberiam. Afinal, eles tinham tentado entrar em contato com Alejandra, não comigo. Seria possível que me culpassem de alguma forma pela morte da Betty?

– Se houver algo que eu possa fazer para ajudar... com as providências...

Eu me senti tão inepta com as palavras quanto meu noivo. Felizmente, organização era o forte de Francis, e pressenti que o fato de ter um funeral a providenciar o ajudaria a atravessar os próximos dez dias, até que chegasse a hora de enterrar a filha.

– Tem só uma coisa... – começou Linda, hesitante.

– Qualquer coisa. Por favor, diga.

Ela me dirigiu o que pareceu ser a sombra de um sorriso.

– A funerária nos pediu que escolhêssemos uma roupa. Acho que não consigo...

As palavras se perderam em uma avalanche de lágrimas. Betty precisava vestir algo para o enterro, e Linda, que acompanhara a filha em inúmeras idas a shoppings em busca do vestido perfeito, não suportava a ideia de escolher esse último traje.

Que mãe suportaria?


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