Daenerys

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"Não sou um meistre para lhe citar história, Vossa Graça. Minha vida foram as espadas, não os livros. Mas qualquer criança sabe que os Targaryen sempre dançaram demasiado perto da loucura. Seu pai não foi o primeiro. O Rei Jaehaerys disse-me um dia que a loucura e a grandeza eram dois lados da mesma moeda. 'Sempre que um novo Targaryen nasce', disse ele, 'os deuses atiram uma moeda ao ar e o mundo segura a respiração para ver de que lado cairá'." - Ser Barristan
(Daenerys, A Tormenta de Espadas)

As garras de Drogon prenderam-se ao baluarte pedregoso de uma das pirâmides, próxima ao mercado de Meereen, deixando Daenerys confusa com a súbita mudança de direção; suas asas negras estenderam-se para o alto, e um rugido irrompeu de sua garganta, tão poderoso que parecia rasgar o próprio vento.

Olhos curiosos voltaram-se aos céus em sua direção, mas Dany, embora os sentisse, não podia vê-los. Eram apenas pequenos espectros distantes, silhuetas humanas sem rostos discerníveis daquela altura. Ainda assim, sabia que algo ali chamara a atenção de Drogon, podia sentir a inquietação dele sob suas pernas. Poucas coisas despertavam o interesse de seus filhos daquela forma, e por isso observou a movimentação daqueles espectros com curiosidade, sem notar nada que lhe parecesse fora do comum.

De repente, lembrou-se de como fora estar no topo da muralha de Porto Real. O medo e a raiva rasgando sua alma, arranhando incessantemente a fina camada entre a loucura e a sanidade que pendia sobre sua mente. Recordou o peso das traições, das perdas e das mágoas esmagando-lhe o coração, e do ódio que sentira por aquelas pessoas correndo desesperadas pelas ruas da capital, abaixo de seus pés, um ódio que a consumira por completo. Odiara todos os soldados Lannister, mesmo aqueles que haviam largado as espadas no chão. Escolhera o terror em vez do amor, fogo e sangue. E então, quando as asas de Drogon se abriram nos céus, gritara "Dracarys", e tudo se tornara cinzas no ar gelado do inverno naquela cidade sem neve.

Perguntou-se como seria a sensação de estar novamente acima de Porto Real, liberta do ódio e da mágoa, cheia de sonhos outra vez, observando as torres pontiagudas da Fortaleza Vermelha erguerem-se aos céus, distantes, intocáveis e suas, devolvidas à posse da Casa Targaryen, como no passado. Perguntou-se se sentiria que estava em casa quando aquilo acontecesse, embora já soubesse a resposta.

Naquela manhã, ao montar Drogon, Dany decidira sobrevoar todo o caminho de Meereen até Volantis. Tinha intenções claras em relação à cidade, e por isso circundou seus céus em voo baixo, observando as grandes Muralhas Negras que se fechavam em forma circular: uma fortificação imponente de pedra escura, com um topo largo o suficiente para que seis carroças passassem lado a lado, como acontecia todos os anos durante as celebrações do aniversário da cidade. Sabia-se que apenas homens de sangue nobre da antiga Valíria tinham permissão para viver dentro daquelas paredes.

A fortificação tinha quase duzentos pés de altura e representaria um obstáculo considerável caso tentasse conquistá-la. No mínimo, teria de queimar as muralhas para permitir a entrada de seu exército; no máximo, queimaria todos os que estivessem dentro delas.

Vira também a grande ponte de pilastras maciças que unia as duas metades de Volantis sobre o Rhoyne, larga o bastante para sustentar grandes construções de madeira que, à distância, pareciam estalagens e tavernas. Viajou pelos céus da cidade até o Grande Templo de R'hllor, o Senhor da Luz, onde pousou sobre uma de suas torres esbeltas, retorcidas para o alto como chamas congeladas. Era tão alto que Dany podia ver o Mar Estreito estender-se ao longe, num azul infinito.

Foi então que pensou: Westeros está logo ali. Com Drogon, bastariam alguns dias para alcançá-la. Desejava ir até lá e conquistá-la. Seria mais fácil agora que alertara Olenna Tyrell sobre os planos de Cersei para roubar o ouro de Highgarden. A Coroa devia somas imensas ao Banco de Ferro e, sem o ouro dos Tyrell, Cersei não apenas não teria como quitar suas dívidas, como também ficaria sem um fiador para uma possível guerra entre elas.

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