Meus pulmões ardem com as cinzas de histórias que acabaram antes de seu tempo, os finos tecidos se rasgam em espinhos, me afasto da vila o mais rápido que posso enquanto torço para acordar de um pesadelo cruel, caio de joelhos antes de despencar em um desfiladeiro, sinto pequenas pedras esfolarem minhas mãos. Grito o mais forte que consigo e sinto algo se partir dentro de mim, como puderam fazer tamanha atrocidade com cidadãos comuns, não eram soldados eram mulheres, crianças... Escuto meu grito ecoar pelo desfiladeiro abaixo , algumas lágrimas caem sobre as pedras ou são levadas pelo vento forte.
Então me levanto e enxugo minhas lágrimas e respiro fundo, dou um pequeno passo para frente olhando para as pedras no fundo do desfiladeiro, minha vida pagaria essa divida de sangue e eu não teria que suportar essa dor. Fecho meus olhos e respiro fundo, dou mais um pequeno passo, cerro meus punhos segurando parte do tecido de meu vestido, meu coração está assustado.
- Então é isso que decidiu, fugir?
Abro os olhos assustada e me viro para voz, Shang está sentado em uma pedra logo atrás de mim, me pergunto por quanto tempo ele me observou e enxugo as lágrimas.
- Eu nunca quis que algo assim acontecesse, nunca quis que pessoas inocentes morrecem. Todos vão ficar melhor assim, essas pessoas vão ter sua vingança e minha família não vai precisar se preocupar com uma filha refém, até você terá paz com minha morte.
Pela primeira vez vejo um leve sorriso aparecer em seu rosto o que me causa uma leve repulsa, olho de canto para trás e aperto mais o tecido em minhas mãos e escuto ele bater palmas.
- Sim, provavelmente está certa, vá em frente!
Ele estende uma mão ainda sentado como que me indicando o desfiladeiro, meu coração parece parar de bater por alguns segundos, me viro novamente olhando para imensidão abaixo de mim, a honra de minha casa seria restaurada, não seria um impedimento e logo meu pai imperial traria justiça, não posso crer que ele tenha conhecimento de tal atrocidade, fecho os olhos novamente e respiro fundo.
- Shang Lín, por favor não toque em minhas irmãs... Isso apenas trará mais desgraça aos dois reinos.
Digo baixo e deixo o vento levar minhas palavras até ele, consigo imaginar a destruição que uma guerra causaria, é é esse o caminho em que as coisas estão se encaminhando.
- Não prometerei tal coisa, você decidiu tomar o caminho mais fácil e acabar com seu sofrimento, então pule e acabe logo com isso ou eu mesmo acabarei, você pode se entregae e desistir de tudo, ou você se levanta usa esse sofrimento como uma armadura e vai para batalha. Sua dívida não é com os mortos, ela é com os vivos e principalmente com você mesma então levante a cabeça e lute! Ou pule e acabe com isso...
Volto a olhar para ele, vejo caminhar até perto de mim, não me movo, olho de relance para trás, quem cuidaria de minhas irmãs? Como ficaria o coração de meu pai? Com um frio em meu coração tenho a certeza de que ele irá atrás de minha irmãs, não posso suportar a ideia de deixar que elas passem por isso Vejo o relance de algo prateado vindo em direção a meu rosto e seguro seu braço antes que a chegue a mim, meu coração bate forte em meu peito, não posso morrer! Tudo que meu corpo grita é "não posso morrer". Olho fixamente nos olhos do assassino à minha frente.
- Da proxima vez que tentar algo estúpido como tal eu mesmo acabo com sua vida, não esqueça que você não passa de uma escrava, sua vida não é preciosa assim como suas palavras e ações, você é totalmente substituível, aprenda a ficar em seu lugar!
Sinto meu corpo fraquejar mas antes que possa retalhar ele me joga em seu ombro como se eu fosse um saco de trigo, me debato e dou socos em suas costas tentando fazer com que me solte mas é inútil então logo desisto, sinto meu corpo cansado e meu coração dolorido, sinto falta de minhas irmãs e de minha casa, será que um dia voltarei? Ou passarei o resto de meus dias como uma mera escrava? Então deslizo minha mão levemente até tocar o cabo de sua espada e a seguro firme.
- E o que pretende fazer depois? Para alguém que viveu rodeada de escravas você não parece saber como uma deve se portar. Talvez precise ensiná-la as regras de minha casa, como não tentar matar seu senhor.
Cerro meus dentes mas antes de puxar a espada sou jogada longe no chão, caio sentada e me ergo rápido.
- Não sou sua escrava! Sou Líang Mei, primeira princesa do estado líang e herdeira principal e você nunca será meu senhor, não acredito em uma palavra que saia da boca de um assassino muito menos de seu imperador, se me mandar de volta posso pedir por uma morte rápida para você.
Ele me olha sem expressão mas vejo um leve brilho em seus olhos.
- Nem parece que estava pronta para tirar sua vida a poucos minutos, eu já a salvei mais vezes que alguém como você merece, para alguém que não acredita em assassinos você só fala coisas que ouviu de bocas assassinas, é uma criança tola que não conhece o mundo e nem o que se passa em sua cidade natal, uma princesa criada com todos os caprichos e levada a acreditar que tem poder sobre todos quando não tem nem sobre sua vida!
Fico calada, não sei como o responder a altura, suas palavras parecem me perfurar como uma espada, nunca pude sair de meu palácio mas isso por causa de pessoas como ele que ameaçam nossa segurança, se ele não tivesse me sequestrado os homens de meu pai não teriam retaliado. Me agarro a isso como verdade e me convenço a aguentar e permanecer viva, sei que alguém vira, em minha mente vejo um rosto feliz, um rosto que me trouxe felicidade em minha infância, mas tão rápido como vem a memória se vai.
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A queda de Líang
RomanceNa China antiga, os segredos eram mais valiosos até mesmo que o ouro. Conspirações e traições rodeiavam o grande império Líang. Alheia a tudo o que acontece fora dos muros e da tirania dos soldados e do próprio pai, Líang Mei, primeira princesa do...
