16 | É aqui que nos separamos

1K 146 76
                                        

Eu queria falar com ele. Decidi isso no dia seguinte, na segunda-feira, quando estava tomando café ao mesmo tempo em que relia o bilhete que ele tinha me escrito. Eu havia acordado com um nível de ansiedade altíssimo hoje. Durante o demorado banho, eu fitava a parede do banheiro com tanta concentração que chegou um momento em que a região entre minhas pálpebras começou a latejar, então eu soube que precisava cessar o franzir da testa. Eu queria pensar por mais dias e tomar uma decisão mais justa sobre ver ou não Max. Mas eu me conhecia. Não importava quantas horas eu precisaria para ponderar se eu o chamaria ou não, a conclusão seria óbvia: sim.

Eu tinha que falar com ele. Eu queria.

Sendo assim, já tomada a minha decisão, fechei meus olhos por uns segundos, deixando a carta na mesa, e pensei nele, especificamente na minha necessidade de ter sua presença por perto. Regulei minha respiração para já ficar preparado quando fosse revê-lo. Então, abrindo os olhos de maneira lenta, eu o vi em pé há mais ou menos dois metros de mim, à minha direita. Eu pensei que fosse levar um susto ao ver seu rosto ou ficar extremamente envergonhado, todavia, por ser uma réplica exata do Max real, nenhuma das duas coisas me aconteceu.

Para ser sincero, eu estava muito emocionado.

Ele usava a mesma roupa de quando nos conhecemos — quando nos esbarramos no mercado do outro lado da rua da casa da minha vó. A expressão em seu semblante era a mais pacífica possível, como se estivesse bem consigo mesmo, em paz. Por me lembrar de novo de como eu o assisti degradar no ar na última vez em que eu o vi na vila, uma dor sufocou meu peito. Ah, meu Deus...

— O-Oi — gaguejei, e, do nada, lágrimas vieram.

Sem resistir, levantei-me da cadeira e o abracei com toda a minha vontade. Tão confortável quanto eu me lembrava, pareceu que eu fui de encontro a uma definição exata de maciez. O gesto foi gostoso, mas seu significado doeu.

— Eu senti tanto a sua falta... — sussurrei, forçando-me para controlar o tremor dos meus lábios.

Escutei seu sorriso caloroso no meu ouvido.

— Não deveria, Tales. — Ele me apertou mais. Deixou que o momento acontecesse por um período bem longo. — Você está muito bem acompanhado agora. Você está feliz.

Eu só chorei, absorvendo o calor de seu corpo. Como poderia ele não ser real e, ainda assim, apresentar comportamentos tão humanos?

— Não chore... — Ele correu os dedos no meu cabelo e me afastou para me olhar. Havia compaixão em seu rosto. — Se eu soubesse que ficaria assim, não teria aparecido.

— Mas eu quis — insisti.

— Eu sei. Só não sei se é justo te faz chorar.

Eu limpei minhas bochechas para melhorar a situação e o observei da mesma forma que alguém olharia para um ser majestoso. Ele está aqui na minha frente mesmo...

— Eu pensei... que nunca mais fosse te ver...

Houve uma pequena alteração no carinho que dançava em suas íris. Ele ficou percentualmente mais cauteloso.

— Esta é a última vez que você me verá, Tales — disse quase da mesma forma que uma pessoa diria ao tentar falar um idioma novo: separadamente.

Franzi o cenho e soltei o ar.

— O quê?

— Eu não vou aparecer mais. Nunca.

Eu entendi essa parte — com uma dor terrível no coração, mas entendi. O problema era compreender o propósito.

CONTE-ME MAIS UMA VEZOnde histórias criam vida. Descubra agora