Jéssica havia me ligado há dez minutos e até agora a conversa fluía pelo telefone na manhã de sexta-feira. Eu estava deitado em um dos sofás enquanto minha mãe preparava o almoço. Era folga dela hoje — bem como todas as outras sextas.
— Ah, Tales... Estou indo para a segunda semana sem você aqui e estou sentindo como se já tivesse passado um mês. Sinto sua falta.
Eu já não tinha acordado com um nível de felicidade elevado — eu nem poderia considerá-lo como mediano, para se ter uma ideia —, e ouvir isso de Jéssica acentuava minha fragilidade emocional. Eu tomei café da manhã observando as esporádicas formigas pequenas caminhando pela mesa de tão fora do meu mundo que eu estava. Isso era fruto da noite anterior. Acordei pensando em Max.
— Eu também, Jess. — Essa deveria ser a primeira vez que eu a chamava assim. — Muita falta. Como vai o namoro?
— Vai bem. Vinícius é um amor. Adoro os boys engraçados.
— Combina com você. Seu humor merece alguém à mesma altura.
Ela deu um suspiro apaixonado, e eu podia imaginá-la segurando alguns fios de seu cabelo rosa no ar, deitada no chão, à medida que pensava em seu namorado.
— Mas e você? Conheceu outro garoto? Deve ter sido difícil superar Max, né?
Todas as vezes que eu me recordava que eu nunca disse a ninguém sobre a inexistência de Max, um calafrio me passava pela espinha. Eu sentia como se estivesse carregando um segredo muito perigoso por muito tempo e que em algum momento ele seria revelado da pior maneira possível. Acho que eu seria internado numa clínica se isso chegasse mesmo a acontecer.
— Conheci um menino aqui também — murmurei, espiando por cima dos meus pés esticados no sofá a fim de ver se minha mãe faria alguma careta. Ela nem me ouvia.
— Já?! — Sua surpresa do outro lado da linha me fez sentir um sem-vergonha.
— É-É...
— Não é uma crítica, sério. — Jéssica deu uma risadinha. — Caramba, que doido. Quer dizer, você é muito bonito, não me admira que outro menino tenha se interessado por você, mas... tão rápido? Nossa! O que é que você faz para conseguir ser assim?
Não contive o sorriso, mas não foi sustentado por muito tempo.
— Eu não faço nada.
— Okay... — Seu tom era do tipo "Vai ser assim, né?" — Não precisa me contar agora. Em todo caso, estou orgulhosa. Você é doce, tem que ficar com alguém mesmo. Apoio qualquer pessoa que te faça bem.
Um dia eu me acostumaria a receber elogios e a retribuí-los, mas não agora e não hoje. Fiquei em silêncio, então.
— Como ele é? — A voz de Jéssica ficou mais curiosa.
Ele é exatamente a mesma pessoa que eu conheci aí...
— Muito cavalheiro. — Eu temi que fosse chorar se eu anunciasse todas as outras inúmeras qualidades que faziam jus a Max, o que me fez ser mais sucinto na resposta: — Todo mundo da sala gostou dele.
Ela ficou muda um instante.
— Mas ele fala contigo?
— Fala.
— Você acha que ele está interessado em você?
Fiz uma expressão de "Não sei" com a cabeça, porém me dei conta de que ela jamais veria.
— Não sei.
— Ah, vai, deve ter se interessado, sim, mas você é modesto demais para me dizer.
VOCÊ ESTÁ LENDO
CONTE-ME MAIS UMA VEZ
Storie d'AmoreMais surreal do que ter um namorado imaginário é descobrir que ele, na verdade, existe. Após passar por essa situação, Tales Johnson precisa descobrir como reconquistar a pessoa que um dia já amou - Max - e que agora nem sabe quem ele é. Por medo de...
