o outro lado

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eu sou o pior tipo de maldade que há. aquele que ninguém sabe que existe. aquele que se disfarça de arrependimento e compaixão, doçura e sutileza, e se vale de todos os possíveis encantos para laçar a crença alheia na sua bondade — que até meu próprio ego se força a acreditar. as pessoas vêem o meu espetáculo de máscaras e pressupõem minha identidade, cirurgicamente medida para cada qual acompanho na jornada da vida. todos conhecem uma parte de alguém que nunca conheci. alguém que não sou.

ora, é claro que não. passo longe de ser o ideal de qualquer coisa, e mesmo assim supõem a minha capacidade de fazer grandes coisas quando nem mesmo sou capaz de fazer as mais básicas. falácia. pobres criaturas, laçadas por qualquer afirmação naturalizada, desprovida de fundamento e quaisquer referências.

no entanto, para que haja ao menos um pingo de justiça ao avaliar o comportamento ingênuo daqueles que me cercam, pontuo que nem ao menos eu, responsável por todo esse espetáculo circense de máscaras a todo momento, consigo sequer imaginar o que me aguarda debaixo destas. talvez o tempo tenha se encarregado de apagar minhas características viscerais, com o pressuposto de que nunca as usei de fato nem mesmo solitariamente à frente do espelho, e só tenha restado as marcas características das máscaras que cobrem o meu rosto cotidianamente. grossas, frias e permanentes, com retalhos adicionados mais uma vez pelo tempo e de acordo com minhas necessidades de omitir meu verdadeiro eu para todo o resto que me cerca.

pobre mundo que supõe minha identidade.

gritos de identidade (poesia)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora