Capitulo 15

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Mais uma vez me desliguei, apaguei desta realidade que me reduzia a nada e não sei quanto tempo esse apagão durou, fui acordada pela minha mãe e não sabia momentaneamente onde estava, nem que horas eram? O quarto estava numa penumbra e minha mãe estava sentada aos pés da cama, ela me chacoalhando dizendo palavras que eu não entendia, ela me olhou com aquele olhar de mãe e percebi que ela mudou seu tom de voz e disse:

- Filha a Heloísa está lá fora e quer falar com você.

-Porque ela não entrou?

- Não sei. Não me obrigue a dizer aquilo que penso sobre essa moça. Por favor, se ela visse o estado que ela está te deixando, Ela  não te merece!

- Mãe por favor, eu não tenho a menor condição de ouvir a senhora falando as suas verdades, agora não.

Levantei rapidamente procurando minhas muletas, fui escovar os dentes, coloquei uma camiseta limpa e ao me olhar no espelho tomei um susto com o que vi, eu estava um farrapo humano. Tentei prender o cabelo de um jeito diferente e parecer minimamente apresentável. Confesso que estranhei o fato dela não querer entrar, mas respirei fundo, espantei meus pensamentos e fui até o portão para recebê-la, tentando mostrar que eu estava bem apesar da minha cara dizer o contrário.

Ao abrir o portão e parecia ser uma miragem diante de mim, quantas vezes vim até aqui fora  desejando que ela estivesse exatamente onde estava. Ela estava encostada no carro, linda e encantadora como sempre, porém ela não sorriu ao me ver e nem se aproximou, seu semblante era fechado e sério. Eu por outro lado sorri como há dias não sorria e fui logo dizendo:

- Que bom te ver, estou morrendo de saudades. Quero te abraçar, vem mais perto. Eu preciso de um abraço!

- Melhor não, estou com um pouco de pressa, preciso ir buscar as meninas na minha mãe.

- Nossa tudo bem, vou pegar minha mochila e já venho. Iremos juntas buscar as Meninas.

- Não, Fernanda espera, eu não vim te buscar, vim somente trazer as suas coisas que estavam na minha casa.

- Como assim? Que história é essa? O que está acontecendo Helô? Eu sabia que algo estava acontecendo. Você não me atende ou respondeu as minhas mensagens. Porque você sumiu?

- Não tenho tempo para falar com você agora. Eu trouxe as suas coisas.

Ela simplesmente abriu o porta malas do carro pegou uns sacos de lixo preto e passou a colocá-los no chão do quintal da casa da minha mãe, como se estivesse efetuando uma entrega. Sem dizer nada, mecanicamente tirava os sacos do porta malas do carro, rapidamente.

Completamente incrédula eu sentei no degrau da escada e ali fiquei, vendo ela colocar todos aqueles sacos de lixo com as minhas coisas no chão como se nada fossem. Jamais em tempo algum esperei vivenciar uma cena como aquela. Sem dizer uma única palavra que pudesse justificar aquilo tudo. Ela parecia uma estranha diante de mim, com gestos frios e em total silêncio,  rapidamente os sacos acabaram, ela entrou em seu carro e foi embora, sem nada dizer. Virou a esquina e desapareceu deixando um vazio em mim.

Eu não tive nenhuma reação, não fui capaz de dizer nada, não gritei, não xinguei ou tive a iniciativa que qualquer pessoa normal teria ou cabível naquela situação. Paralisada pela cena que havia acontecido diante de mim, permaneci sentada esperando que ela voltasse e se arrependesse de tudo aquilo, mas isso não aconteceu. Catatônica fui tomada por uma sensação de impotência e decepção gigantesca. Minhas roupas e pertences dentro de sacos de lixo, dispostos aleatoriamente pelo chão, como se eu fosse uma mercadoria que estava sendo devolvida ao seu remetente.

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