Capítulo Dezessete

795 109 207
                                        

Fazia cerca de quinze minutos que Mycroft havia saído do porão, mas, para Sherlock, parecia muito mais. Ele passou todo o tempo mexendo seus braços na esperança de afrouxar as cordas. Devido ao cansaço, o chamado frenético para tentar acordar John havia diminuído para uma tentativa ocasional, mas o desespero em seu peito só crescia a cada vez que sua voz não conseguia nenhuma reação do médico.

Sherlock estava começando a acreditar que John estava mesmo morto e que trazê-lo para o porão havia sido apenas mais uma tática de Molly para ferrar com sua mente. O fato de Mycroft não ter apagado a luz ao sair, era quase uma confirmação disso. Um pequeno movimento no corpo de Watson chamou sua atenção e afastou essa ideia, fazendo o detetive suspirar de alívio. Não era o ideal e ele não podia ter certeza de que o homem não estava morrendo, mas pelo menos ainda não estava morto.

— John – Ele voltou a chamar com esperança renovada – John, acorde.

A única resposta que obteve foi um gemido, mas em comparação ao silêncio esmagador recebido por seus chamados anteriores, aquele era o melhor som que já tinha ouvido.

O detetive olhou para seus braços ainda presos à cadeira. Seus pulsos estavam esfolados, mas a corda não havia afrouxado nem um pouco. Em qualquer outra ocasião ele teria apenas se jogado com a cadeira no chão e esperado que o impacto quebrasse a madeira, mas Molly havia se adiantado a isso e pregado a cadeira ao chão.

Depois de tentar se libertar por mais um tempo, os pulsos de Sherlock começaram a sangrar. Ver as pequenas gotas de sangue se formando na pele abusada, trouxe uma nova ideia ao detetive. Com os dentes cerrados contra a dor, ele continuou a mover os braços, dessa vez, buscando contato com a corda. Como o esperado, o atrito machucou mais seus pulsos, aumentando o sangramento.

Usar o sangue como lubrificante para deslizar suas mãos para fora das cordas não era o melhor plano de ação, especialmente com o quanto ele havia perdido pelo ferimento em seu ombro, mas era a única coisa em que ele podia pensar.

Demorou um pouco para conseguir sangue o suficiente para que seus pulsos ficassem escorregadios. Mesmo com a ajuda do sangue, escapar não foi uma tarefa fácil, mas depois de alguns minutos, ele libertou sua mão direita. Remover o resto das amarras que o prendiam à cadeira, não demorou tanto, apesar de apertados, os nós eram fáceis de desfazer uma vez que ele podia alcança-los.

Ainda tonto e com as pernas um pouco dormentes, Sherlock se levantou e caminhou com passos arrastados até onde John estava. Ele não tinha ilusões sobre suas possibilidades de escapar, a luz vermelha no canto da sala indicava que ele ainda estava sendo vigiado e, mesmo que conseguisse sair do porão, não chegaria muito longe.

— John? – Sherlock se ajoelhou ao lado do amigo. John ainda tinha os olhos fechados, mas gemeu em resposta ao chamado – Ei, John.

O detetive estava cansado demais para se manter equilibrado sobre os joelhos, então, se sentou ao lado do corpo do médico. Seus olhos foram atraídos para as áreas mais ensanguentadas da roupa de seu amigo e, para seu alívio, notou que ambas as feridas de bala haviam sido bem enfaixadas.

Apesar do medo de agravar os ferimentos de John, Sherlock o sacudiu um pouco, tentando trazê-lo de volta a consciência. Por um momento pensou que não funcionaria, mas então, os olhos do homem se abriram em pequenas fendas fazendo com que ele soltasse a respiração que não percebeu que estava segurando.

— John, você está comigo? – Tudo o que conseguiu foi um novo gemido. O detetive mudou as mãos para o rosto do médico quando o último voltou a fechar os olhos. – Ei, fique acordado, OK? Eu vou tirar a gente daqui.

As palavras soaram falsas até a seus próprios ouvidos, mas ele não se importou. Parte dele sabia que era egoísmo querer que John estivesse consciente para encarar a morte. Ele precisava disso no entanto. Precisava saber que John Watson estava com ele até o fim, mais que isso, precisava que o homem estivesse acordado para ouvir as palavras que ele gostaria de ter dito desde que viu seu amigo com uma bomba presa ao peito perto daquela maldita piscina.

The Devil's Game (Concluída)Onde histórias criam vida. Descubra agora