Capítulo Dezesseis

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Sherlock sentiu seu coração parar por um momento com as palavras de Molly. A mão da mulher apertava seu ombro ferido, mas a dor latejante em seu ombro não chegava nem perto da dor em seu peito ao pensar que o corpo sem vida de John estava em algum lugar daquela casa. Sentiu seus olhos queimarem, as lágrimas lutando para sair, mas ele não podia deixá-las. Sherlock Holmes nunca chorou e não ia começar agora.

— Você está mentindo – Disse com uma firmeza que não sentia.

— Estou? – Molly soltou seus ombros e voltou a sentar de frente para ele, seu olhar era firme e havia um sorriso puxando seus lábios. Não havia nenhuma indicação de que ela estava mentindo. – Você não pode dizer, não é? – Ela continuou quando Sherlock ficou em silêncio. – Você é tão bom em ler as pessoas, mas não pode dizer se eu estou mentindo.

Uma pequena faísca de esperança se acendeu no peito do detetive ao ouvir essas palavras, afinal, se Molly estava exaltando sua capacidade de mentir, isso fazia da morte de John uma mentira, certo?

— Como? – Perguntou. Mesmo com o coração pesado, ele não conseguia matar aquela pequena parte de si que olhava para o mundo de forma científica e tentava entendê-lo – Todas as pessoas têm algo que indica quando estão mentindo. Um tique, um gesto, qualquer coisa, por mínima que seja.

— Qual é o meu? – Molly questionou com os olhos brilhando de interesse. Ela escorregou para a ponta da poltrona e se inclinou,   invadindo o espaço pessoal do detetive.

— Sua voz tem uma vibração diferente quando conta uma mentira – Sherlock se recusou a desviar o olhar, mesmo com o rosto da mulher apenas a um palmo de distância do seu.

— Interessante – Sherlock esperou que a mulher continuasse seu discurso, mas ela ficou em silêncio, apenas o encarando.

Era enervante a sensação de ser observado daquela forma. O rosto de Molly não revelava nada sobre o que ela pudesse estar pensando ou sentindo.

— Você estava fingindo – Sherlock percebeu de repente – Essa vibração na sua voz, todas as microexpressões, você estava apenas atuando.

— Se isso faz você se sentir melhor, a parte de estar apaixonada por você foi real. – Ela não esperou uma resposta antes de beijá-lo. Sherlock apertou os lábios, se recusando a contribuir para o beijo, ele pensava que isso a irritaria, mas pelo contrário, quando ela se afastou estava sorrindo. – Você tem que aprender a se divertir, Sherly.

— Me desculpe, mas ser baleado, drogado e amarrado em uma cadeira já é diversão suficiente por um dia – Ele inclinou a cabeça tentando limpar a boca no ombro e apagar o gosto dos lábios de Molly dos seus.

A mulher não respondeu ao comentário sarcástico, apenas continuou a encará-lo. O olhar em seu rosto fazia o detetive se sentir como uma mosca presa em uma teia de aranha. O mais desconcertante era não saber se aquela era uma expressão real ou mais uma das atuações de Molly para lhe causar medo. Se esse fosse o caso, estava funcionando perfeitamente porque ele não se lembrava de sentir tanto medo em qualquer outra ocasião.

— O que aconteceu com os outros? – Sherlock perguntou, tentando empurrar a sensação de pavor crescente para o fundo de sua mente – Moriarty, Mycroft, o que você fez com eles?

— Nada. Por que você achou que eu os machucaria? – O tom inocente fez o estômago de Sherlock revirar. Ele passou anos acreditando nessa inocência, mesmo agora, se não tivesse visto do que a mulher a sua frente era capaz, o detetive acreditaria nela.

— Porque, nas palavras de John: Você é uma puta psicopata. – Falar sobre John trouxe de volta a queimação no canto dos olhos por não saber a real condição do médico. Molly podia estar falando a verdade sobre sua morte ou poderia estar mentindo, em suma, John era uma versão moderna do maldito gato de Schrödinger*.

The Devil's Game (Concluída)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora