Dois meses havia se passado desde que Hades foi ajudar Poseidon, já que o meu chefe estava fora, decidi que me daria uma folga a mais na semana e Hecate não contestou a minha decisão de me manter um pouco afastada do escritório. Hoje eu estava bem, mas o meu humor oscilava dependendo do dia, cuidar de Cérbero ao mesmo tempo que me distraia fazia a dor dentro de mim se remexer, mas eu não poderia deixar o pobre cão sozinho. Na primeira semana sem Hades, ele uivava de tanta saudade de seu dono, parou de comer e ninguém o fazia ficar na porta do submundo para impedir a fuga das almas, até que Ártemis se prontificou a vir conversar com ele e o convenceu de que quando Hades chegasse e o visse desobedecendo suas ordens, ele ficaria super magoado. Apesar de tudo, ele só beliscava enquanto eu estava por perto, às vezes eu o encarava e conseguia ver lágrimas em seus olhos marejados.
Era uma quinta-feira, Dríope comia a sua típica salada enquanto eu beliscava alguns pedaços de tofu em meu prato, o escritório estava um silêncio desde que os gritos do meu chefe não eram mais presentes, mas em qualquer lugar que se olhava parecia que ele estava nos observando, o seu perfume ainda parecia predominar o ambiente e a mobília neutra do escritório me fazia lembrar de como foi o nosso último dia juntos, antes dele partir. Esse era um dos motivos que eu havia trancado a porta e me recusado a ficar no mesmo corredor, transferi a minha mesa para ao lado de Dríope, o que facilitava muito a nossa comunicação. Por estarmos no ambiente mais alegre do local, a cozinha, eu até conseguia me esquecer de alguém que tinha olhos tão pretos e profundos quanto ao de um buraco negro.
- Pers, você acha que o Quíron pode adiar as nossas provas do meio do ano? – a minha amiga perguntou ao levar o seu último pedaço de pepino fatiado à boca. Eu simplesmente dei de ombros, era difícil Quíron mudar de ideia em relação a uma programação feita desde o início do ano. Seguimos por um momento de silêncio até que o meu irmão mais velho entrasse pela porta quase tropeçando em si mesmo.
- Você. – Hermes apontou para mim, o que me fez piscar. – Zeus quer ver você hoje a tarde. – ele estava esbaforido, parecia que ele tinha corrido uma maratona, o que não é de se entranhar se ele veio do Olimpo direto para o submundo. Hermes sentou de frente para mim, sem seu traje branco habitual que contrastava com a sua pele negra.
- Ele disse o motivo? – quis saber. Um encontro com Zeus não era uma boa coisa. Não para mim. Se eu fosse um filho que tivesse muitos feitos até que poderia sentir algum orgulho, mas eu era apenas uma bastada que recentemente começou a entender um pouco como as relações olimpianas funcionavam. E eu não estava muito satisfeita. Na verdade, eu não estava nada satisfeita.
***
Hermes me deixou na frente do maior edifício do Olimpo, o que já era de se imaginar vindo de Zeus, "o deus dos deuses". O prédio era todo espelhado a fachada continha um raio prateado, achei um pouco cafona, mas eu não estava ali para julgá-lo. Ou estava? Olhei para um dos espelhos que fazia a frente do lugar, eu vestia uma calça jeans clara e justa, afinal, eu sou do tipo que sei como valorizar o meu corpo numa roupa. Bem, os dois meses sem Hades me fez pensar assim, Dríope ia comigo toda semana ao shopping, dava dicas e presentes para que eu começasse a notar com sou "uma deusa da cabeça aos pés" (palavras dela). Mas não posso negar que me ajudou, começar a melhorar a minha aparência e reparar como eu valho a pena ser conquistada e não ser jogada de lado pela ex. Mesmo com a minha amiga me incentivando a ser mais sensual para arrebatar os corações dos deuses – Eros até disse que me ajudaria com isso-, mas recusei. Eu não quero arrebatar ninguém. Não quero parecer sensual. Eu usava jeans por me sentir confortável, não para marcar mais; percebe-se isso por eu estar usando uma blusa verde com desenhos de morangos folgada. Eu me amava do meu jeito, passar um tempo comigo mesma fez eu perceber que a minha companhia é ao menos suportável e que não tem nada de errado se um deus do submundo não acredita no mesmo que eu. Apesar de não demonstrar, eu ganhei bastante confiança, comecei a participar mais das aulas e retrucar comentários desnecessários dos meus colegas, o que, na minha opinião, é um grande avanço desde que eu cheguei no Olimpo. O maldito Olimpo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Amores olimpianos
RomanceA história gira em torno da jovem deusa de 18.000 anos Perséfone, que cresceu isolada de outros deuses e começa uma nova jornada em sua vida. Ela conta de seu ponto de vista suas opiniões e observações sobre os deuses olimpianos, inclusive seus prob...
