Um número de telefone

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Eu passei o resto do tempo para baixo, não conseguia prestar atenção na aula e nem tinha coragem de olhar na cara do David, embora eu tivesse vontade naquela hora. Como será que ele está...

    No intervalo, vários olhares na minha direção, eu queria me esconder de todos naquele momento, mas não tinha volta, quem quer que seja que enviou gravou aquele vídeo, não queria me ver bem e está conseguindo isso. Outra coisa em que eu precisava pensar, ou melhor descobrir... Quem gravou aquele vídeo? As meninas chegam perto.

- Como está? – pergunta Fabi

- Na mesma e esses olhares em minha volta - pausa – só eu sei o que estou sentindo por dentro. – termino de falar e ganho um abraço em grupo delas, enquanto isso vejo que todos continuam olhando para nós, mas um garoto olha para mim, diretamente para mim. Nos soltamos

- Sei que é difícil Fer, mas vai passar.

    No final da aula, eu não queria ir para a casa, eu tinha medo de que meus pais já tivessem conhecimento sobre o vídeo e houvesse algum tipo de confusão lá em casa por causa disso, enfim, eu sabia que uma hora ia ter que ir, mas não seria naquele momento. Pego um livro da minha mochila “Por que Indiana, João?” do Danilo Leonardi e começo a ler, depois de um tempo decido ir para casa, quando estou passando pelo portão do colégio, alguém põe a mão no meu ombro e nisso eu já estava esperando que fosse uma das meninas ou sei lá talvez o Cleiton querendo fazer mais bullying, sei lá, mas não, era o garoto que estava me olhando no intervalo, agora mais perto, consigo ver seus cabelos escuros, seu físico um tanto forte e seus olhos verdes. Ele começa.

- Oi – diz em um tom tímido, o que é muito estranho para uma pessoa assim.

- Oi...é.. quem é você? – eu não sabia o que falar

- Desculpa, sou Afonso... – nitidamente sua timidez está a mostra

- Desculpa... – digo com cara de confuso

- Sou do 2° ano, não nos conhecemos, mas eu queria dizer que sobre o vídeo...

- se vai começar a bagunçar comigo por causa daquilo é melhor parar... – digo já começando a ficar com raiva.

- não, não, só queria dizer que sei o que deve estar passando – Sabe é? - mas se quiser conversar sobre isso ou não sei, desabafar ... – ele diz. -  ta aí meu número – e me entrega um papel com o numero anotado.

- obrigado – fico olhando pra ele alguns segundos, tentando o decifrar...

- você não tinha que ir à algum lugar? – ele pergunta

- oh, claro, é obrigado... – digo meio atrapalhado..

***

     Já em casa, passei direto pro meu quarto e deitei na cama com mochila e tudo, tantas coisas aconteceram hoje. Pego meu celular no bolso e quando o puxo, o papel com o número do Afonso vem junto, mas não sabia se devia ligar ou mandar mensagem, então deixei o papel com o numero dele na mesinha perto da cama. Abro o WhatsApp e vejo minhas mensagens, tem mensagens da Fabi, uma da Rayssa, uma do Alan meu amigo de outro estado e quando passo para ver se tem alguma mensagem no grupo dos melhores, vejo:

“Dave saiu”

    Acho que meio que já sabia que isso ia acontecer.

    Era quase meia noite e não tinha sono, passei horas pensando em tudo o que tinha acontecido.

Como era possível tudo vir à tona dessa forma?

    Em uma das vezes em que procurei uma posição certa para tentar dormir, olhei para a mesa do abajur, onde estava o papel com o número do Afonso. Será que faria mal mandar uma mensagem agora? Não, ele já deve estar dormindo... ah, mas o que custa?

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