16:27pm - Salão Comunal dos Monitores-Chefe.
Narração Hermione.
"É o amor, não a vida, o contrário da morte." FREIRE, Roberto.
- Morto? Como assim? Me conta essa história, Astoria. – Pedi, aflita. Astoria suspirou e passou as mãos no cabelo, sentei-me ao seu lado e segurei suas mãos que suavam.
- Lembrar de tudo que aconteceu me causa muita dor, Hermione. Vivo atormentada pensando nisso. E acho que chegou a hora de compartilhar essa dor com alguém, mas antes de te contar, te peço uma coisa. – Seus olhos se encheram de lágrimas, me olhando profundamente. – Eu preciso que você guarde isso em segredo, não quero que mais ninguém tenha conhecimento do que se passou. Pode fazer isso por mim?
- Claro que sim, não se preocupe em relação a isso. – Confirmei.
- Assim que as aulas encerraram ano passado e a volta de Você-Sabe-Quem foi confirmada, eu e meus pais fomos passar as férias na Rússia. Veja bem, não sei qual a relação do meu pai com Você-Sabe-Quem, mas agora desconfio que estava em alguma missão à mando dele. Eu e minha mãe ficamos num velho casarão sozinhas por meses, tendo a companhia apenas do nosso elfo doméstico. Alguns morros abaixo desse casarão, havia um lago. O frio da Rússia naqueles dias estava insuportável, e nós passávamos o tempo inteiro dentro de casa, e eu estava enlouquecendo ali. Minha mãe passava o dia redecorando aquela casa horrível e às vezes saia para jantares com meu pai, bem é o que eles me diziam. Milagrosamente, o sol abriu durante uma semana. E foi aí que conheci o pai da minha bebê, aproveitei o bom tempo e sai para explorar aquele vale, e perto do lago havia uma casinha de madeira, onde moravam uma família de trouxas, três irmãs e um garoto.
- Não vá me dizer que... – interrompi e ela fez um gesto com a mão para continuar.
- Mikhail era uma graça, Hermione. Eu nunca havia conhecido um trouxa antes, e fiquei encantada com ele. E ele comigo. Ele me tratava como se eu fosse uma rainha, e me escutou durante aquela semana de sol. Foi um presente de Mérlin, Hermione, eu sei que foi. Passada essa semana, eu fiquei três dias sem sair de casa, pois minha mãe queria que eu a ajudasse a redecorar o meu quarto, então não tinha como despistá-la. Fui tão infeliz nesses três dias, fiz tudo rapidamente, depois falei com minha mãe que a sala de jantar estava horrenda e ultrapassada, dali ela não prestou mais atenção em mim. Foi quando voltei para Mikhail, que sorriu como se fosse a pessoa mais feliz do mundo ao me ver, e ali esqueci tudo, esqueci até que o meu pai voltaria para casa naquele dia.
Astoria estava chorando compulsivamente agora. Ela não concluiu a história, mas compreendi exatamente o que havia acontecido e senti meu coração ser dilacerado.
- Não precisa continuar, minha querida. Não mesmo. – Disse e coloquei sua cabeça em meu colo.
- Eu preciso colocar isso para fora. Eu não aguento mais viver com isso. – Soluçou, agora alisando sua barriga vigorosamente. – Então ele nos encontrou, Hermione. E ele parecia um demônio. Não tive nem tempo de abrir a boca antes de ele incendiar o corpo vivo do meu garoto. Senti um puxão e o nosso elfo doméstico me aparatou para dentro de casa, minha mãe continuava me perguntando o que aconteceu e eu só sabia chorar. Os dias que se sucederam deram início ao meu inferno, e eu nunca esquecerei a imagem daquelas chamas.
Meus olhos já ardiam com as lágrimas, eu tinha criado muitas teorias sobre o mistério do pai do bebê de Astoria, mas nada chegava perto da crueldade que ela relatou. Seu olhar estava distante agora, e ela segurava com força minha mão. Ficamos em silêncio por um bom tempo, selando o início de uma união e amizade intensa.
Acompanhei-a até o salão comunal da Sonserina segurando sua mão, ao nos despedirmos, beijei sua testa e senti o meu coração esfriar. Agora mais do que nunca, me sentia responsável por ela, e sentia uma admiração também. Draco perguntou o que havia de errado comigo diversas vezes durante a noite, mas eu não conseguia responder. Minha mente me auto sabotava ao criar imagens em que eu era queimada na fogueira pela família Malfoy. Pela primeira vez, temi o que poderia me acontecer. Entretanto, não queria chatear Draco com esses pensamentos, ele já está passando por muita coisa. Respirei fundo e inspirei seu cheiro para me acalmar. Me agarrei nele fortemente, e dormi receando a nossa segurança.
A segunda-feira chegou com a chuva e minha vontade de sair da cama era nula. Draco dormia profundamente pela primeira vez em dias, então tive bastante cuidado para não o acordar ao deixar a cama. Escovando meus dentes, me encarei no espelho e vi que chorar tanto ontem não ajudou muito na minha aparência. A janela da cozinha estava escancarada, fechei um pouco e decidi preparar um café da manhã simples para não ter que deixar o salão comunal dos monitores.
Preparei um chá, ovos mexidos e torradas. Uma coruja cinza aterrissou na bancada da pia e depositou o meu Profeta Diário, a ofereci um pedaço de pão e ela partiu. Sentei-me para tomar o chá e iniciei minha leitura. Nada além de listas de pessoas desaparecidas e mais desgraças no mundo bruxo. Desanimada, deixei o jornal de lado e comecei a escrever uma carta para os meus pais.
- Bom dia, minha menina. – Draco me cumprimenta, o cheiro da pasta de dente ainda fresco em seu hálito. Beija o topo da minha cabeça e senta à minha frente, puxando o Profeta Diário. – Decidiu se isolar um pouco hoje? Gostei disso. Acho que estamos socializando demais.
- Socializando? Você não fala com ninguém nesse castelo, só aparece nas refeições. – Contesto, ele ri. – De qualquer forma, está muito frio e estou sem ânimo hoje. Só quero curtir o meu tempo livre hoje sem nenhuma preocupação.
- O que houve? Aconteceu alguma coisa? – Perguntou, se irritando.
- Não, nada aconteceu. Só quero ficar "em casa" hoje. – Asseguro, e ele se tranquiliza. Sirvo chá para Draco e levanto. – Você quer torradas também?
- Quero, obrigada. Mas me diga, estou curioso, você conversou com Astoria ontem? Conseguiu descobrir quem é o pai da criança? – Indagou. – Você estava um pouco estranha ontem, foi algo que ela te contou, não foi?
- Admito que sim. – Respondi, despejando os ovos e torradas em um prato.
- Você vai me contar ou não?
- Ela me pediu para manter sigilo, então, não. – neguei, ele revirou os olhos e começou a comer. – Só o que posso te dizer é que é uma história cruel e dolorosa, e não paro de pensar no que ela me contou, Draco...
- Não consigo imaginar o que seja. Mas respeito a sua decisão. Saiba que se precisar de mim, pode me contar qualquer coisa.
- Eu sei. Mas o que ela me contou só me fez ter mais certeza de que quero ajudar ela e o bebê o máximo possível. Mas hoje quero tirar um tempo para respirar. – Digo, e ele segura minha mão. Draco se levanta e tira a louça suja da mesa, e eu selo minha carta.
- É uma carta para os seus pais? Quer que eu vá ao corujal? Você tem razão, está demasiado frio lá fora. – Oferece e eu aceito.
Passamos o resto do dia no salão comunal, onde fizemos também todas as nossas refeições. Tivemos um dia tão gostoso desfrutando da nossa companhia e fiquei pensando quanto tempo estivemos perdendo com tanta incerteza. Observando os braços de Draco me segurando, sua respiração em minha nunca, e desejando mais que nunca que existisse um feitiço para congelar o tempo.
O PRÓXIMO CAP SERÁ ATUALIZADO NO DIA 21 DE MAIO.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Ojesed - Dramione (EDITANDO)
FanfictionE se tudo que você acreditasse e julgasse como a verdade fosse colocado à prova? Você é capaz de refletir e questionar suas crenças? Quem será capaz de refletir a luz de uma outra pessoa? Essa é a história de um amor que iluminou a mais obscura era...
