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San, por incrível que pareça, passa a peça inteira em silêncio, concentrado. Acho que ele gosta de peças dramáticas, porque não dá um piu. Eu que escolhi a peça, porque no horário de almoço ele tinha me dito que preferia que fosse uma escolha minha. Ultimamente não tenho visto muitas coisas dramáticas, então acabei escolhendo essa. Ele parece gostar e fica meio nervoso em alguns momentos. Quando os personagens sofrem, ele está aqui mordendo os dedos em total agonia. Acho que gosto de como ele se entrega ao enredo, como se põe no lugar das personagens e padece em conjunto. Acho lindo. Seguro a mão dele e passamos a peça inteira em silêncio.
Na saída, ele comenta como a atitude do protagonista foi egoísta, pois perdeu o amor dele por conta de caprichos. Eu confesso que ultimamente minha mente está tão cheia que acabei não percebendo tantos detalhes quanto gostaria. Estou meio cansado, honestamente. Vamos caminhando de mãos dadas pela rua e eu sugiro irmos comer num restaurante, porque estou morto de fome. Conto algumas coisas ou outras sobre teatro e ele parece interessado.
— O que estou dizendo — eu comento, abrindo a porta para ele. — É que eu teria feito Artes Cênicas, se eu me considerasse um bom ator. Mas eu peguei um leve trauma de atuação que me fechou bastante.
— E o que houve? — pergunta com interesse, embora não esteja olhando para mim, pois está procurando uma mesa para sentar. San escolhe antes de mim e me puxa para ir com ele sentar grudado no vidro, para que possamos olhar a rua.
— Bem... Eu não estava numa época muito legal da minha vida — conto enquanto senta-se e eu faço o mesmo, do outro lado da mesa. — Eu ganhei um papel muito bom numa peça da escola... Me esforcei bastante, tive incontáveis falas... Gravei todas, por incrível que pareça. Então apresentei. Não sei porque, depois da apresentação me bateu uma tristeza e um vazio surreal, fiquei calado e esperei as premiações. Os professores iriam dar troféus aos melhores atores coadjuvantes, protagonistas, melhor peça e tudo mais... Cada turma fez uma peça, na verdade, mas o tema era o mesmo. Tínhamos que fazer uma espécie de paródia ou releitura de um clássico, por isso seria mais fácil premiar os alunos.
— Vocês escreveram o roteiro? — questiona.
— Adaptamos. Tivemos que trazer temáticas sociais da atualidade, como gênero, raça, xenofobia... — eu explico e ele concorda com a cabeça. Sinto o cheiro de comidinha pronta e meu estômago praticamente grita implorando. — Enfim... Me bateu um vazio na hora, eu me senti mal, e quando anunciaram que eu não iria receber o prêmio de melhor ator principal, mas sim uma outra pessoa, eu fiquei triste mesmo sabendo que não iria ganhar. Eu soube, minutos antes, olhando o chão, que tudo na minha vida era uma ilusão e que eu era extremamente péssimo em tudo que eu tentava. Eu não tinha nem um pouquinho de sucesso... E eu tinha dado o meu melhor no palco, sabe? Aí depois comecei a questionar se havia, de fato, feito meu melhor. Fiquei pior. Chorei quando cheguei em casa. Não quis mais atuar, porque eu achei que era péssimo naquilo, mesmo que todo mundo tivesse dito pra mim que eu deveria ganhar o prêmio. Eu achava que as pessoas me enganavam. Todo mundo dizia que eu era bom em uma coisa ou outra, mas eu não via isso. Não via, também não ganhava prêmios nem era reconhecido pelos meus feitos. Desisti de muitas coisas por conta disso.