One

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Pov's Camila Cabello
Miami - 18/08/2014

Estava exausta. Mudança já não é uma das melhores coisas do mundo, agora mudança para outra cidade consegue ser ainda pior.

Me chamo Camila Cabello, tenho 24 anos e hoje, finalmente, estava me mudando para meu apartamento em Nova York. Depois de terminar a faculdade de Contabilidade, decidi que a cidade que nunca para seria o lugar perfeito para começar minha carreira.

Mas acho justo contar um pouco da minha história antes.

Nasci em Havana, Cuba. Quando eu tinha apenas quatro meses de vida, a mulher que me colocou no mundo resolveu ir embora. Assim que descobriu que eu era intersexual, desapareceu da nossa vida sem olhar para trás.

Então ficou só eu e meu pai.

Papa decidiu recomeçar em Miami, acreditando que ali conseguiríamos construir uma vida melhor. E conseguiu. Ele me criou praticamente sozinho, contando apenas com a ajuda da dona Marta, nossa vizinha, que acabou ocupando o lugar de avó que eu nunca tive.

Sinuh sempre foi um assunto delicado dentro de casa.

Papa nunca gostou de falar sobre ela, e eu entendia o motivo. Ele a amava. Durante muito tempo, sempre que o via chorando escondido, achava que a culpa era minha. Só deixei de carregar esse peso quando ele segurou meu rosto e disse que eu nunca deveria me culpar pelo preconceito de outra pessoa.

Os anos passaram. Terminei a escola, me formei na faculdade em Miami e agora era hora de colocar aqueles cinco anos de estudo em prática.

Só não imaginei que a parte mais difícil seria me despedir do meu pai.

O aeroporto estava um caos. Gente correndo de um lado para o outro, malas arrastando pelo chão e anúncios ecoando pelos alto-falantes sem parar. No meio daquela bagunça, nós dois pareciamos estar presos numa bolha.

– Tem certeza que vai ficar bem? – Perguntei pela milésima vez, apertando a alça da mochila. Não queria deixá-lo sozinho.

– Sim, querida. Vai tranquila e, por favor, se diverte. Você é nova, não quero descobrir que passa os fins de semana deitada vendo série. – Tentou soar bravo, mas o sorriso no canto da boca entregava tudo.

Revirei os olhos antes de abraçá-lo.

– Vou sentir sua saudade.

– Eu também vou sentir a sua.

Fechei os olhos quando senti sua mão bagunçar meu cabelo, como fazia desde criança.

– Prometo vir te visitar sempre que der. – Afastei um pouco o abraço e comecei a apontar o dedo para ele. – Não fica até tarde vendo televisão, não come comida enlatada, a dona Marta cozinha bem... e cuida dela por mim.

– Tá bom, eu vou tentar. E pode deixar que vou cuidar dela. – Papa me entregou minha mochila e sorriu daquele jeito tranquilo que sempre conseguia me acalmar. – Boa viagem, pequena. Me liga quando chegar.

– Eu vou ligar. Te amo, papa. – Beijei sua bochecha bem quando a voz metálica anunciou o embarque do meu voo.

– Também te amo, hija.

New YorkHistórias para pegar e não largar. Descubra agora