Lagartixa na parede

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NUM DIA DE DOMINGO pela manhã, Bel estava triste por todos os últimos acontecimentos

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NUM DIA DE DOMINGO pela manhã, Bel estava triste por todos os últimos acontecimentos. Trouxera Beethoven ao seu quarto, para conversar com ele, já que sentia que o cachorro parecia tão melancólico quanto ela.

― Você não está bem também, hum? ― a menina acariciava as orelhas de pelos lisos do cão. ― O sr. Potter te chateou também? ― ela bufou. Depois, deitou-se no chão e olhou o animalzinho dali debaixo. ― Ele é um bom homem... tenho certeza. Sou eu que não consigo fazer as pessoas gostarem de mim. Sempre aprontando... Você também é danado. Por isso a dona Meredith te chama de mimado. A gente precisa se comportar mais.

O cachorro lambeu seu nariz assim que a garota fechou a matraca.

― Toc toc ― Felipe apareceu à porta, depois de bater. ― o sr. Potter pediu que você fique aqui em cima e não desça, porque ele vai receber visitas importantes. Certo?

Ela não ia descer mesmo. Não queria olhar na cara dele até que fosse uma menina mais obediente. Precisava refletir muito.

― Não se preocupe. Vou ficar quietinha― ela lançou-lhe uma piscadela. O rapaz sorriu e fez um sinal de positivo com seu polegar para a menina antes de sair.

Depois, ela foi até a janela e contemplou o céu. Dali, não conseguiu ver muito da Criação, como desejou. Queria conversar com o Bondoso como antes e confessar algumas coisas.

― Será que eu consigo subir no telhado? Lá talvez dê pra ver melhor o céu. O que você acha, Beethoven?

Se o cachorro fosse gente, certamente teria balançado a cabeça em discordância.

― Lá eu não vou atrapalhar ninguém. O Bondoso vai ser o único que vai me ver, até porque ele me vê em qualquer lugar...

Então, sem pensar nos riscos, a loirinha pôs uma cadeira próxima à janela e subiu, segurando-se nos umbrais para se equilibrar. Havia uma árvore, era uma mangueira de galhos fortes, na qual a criança pôs um dos pés para pegar impulso e subir no telhado. Quando ela ia conseguindo, ouviu o barulho de um carro estacionando. Devia ser os amigos do sr. Potter. Dali, eles poderiam vê-la. Logo, aperriou-se. Não sabia mais se subia ou se descia.

― Toliculoso... ― reclamou, indecisa.

Acabou ficando paralisada, como uma lagartixa na parede, afim de que ninguém a notasse. Deu certo até que a mãozinha dela escorregou um tiquinho e ela perdeu o equilíbrio. Graças ao Bondoso, não caiu. Mas o embaraço fez com que um pedaço de telha caísse no momento em que os visitantes passavam ali debaixo.

― Socorro! Minha cabeça... ― O homem, acompanhado de uma mulher, gritou. Rapidamente, os funcionários saíram da casa para saber o que havia acontecido. O sr. Potter e a senhorita Tames também. Bel apenas fechou os olhos, com pena do homem, e na intenção de parecer invisível.

― Meu amor, você se machucou? Meu Deus! Potter, faça alguma coisa...

― De onde isso caiu? ― O dono da casa questionou. Segundos depois, um silêncio pairou ali. Ele devia ter observado a criança pendurada na janela, com certeza... ― Aquela menina.

― Bel... ― Belinda ouviu a voz preocupada da senhorita Tames.

― Tire aquela criança dali agora, mulher! ― Potter ordenou e apontou, raivoso.

Belinda me contou que não demorou muito para que a senhorita Tames acudisse-a. De volta ao quarto, agora trancado pelas janelas e portas, a menina enrolou-se no lençol da cama e não quis conversar com sua antiga professora.

― Vou ficar aqui até me contar que ideia maluca foi essa ― a mulher avisou, sentada na beirada.

― Deveria se recusar ― Bel fungou ― a cuidar de mim.

― Deveria mesmo.

― E por que não me abandona em um rio, que nem a mãe de Moisés?

A senhorita Tames sabia agora mais da Bíblia do que em toda a sua vida, porque Bel sempre arranjava um jeito de contar sobre o livro do Bondoso. Ela suspirou antes de continuar o diálogo.

― Vamos, me conte. Você nunca foi uma menina de fazer as coisas sem motivo. O que tinha lá no telhado?

Belinda tirou o lençol de seu rosto. O cabelo estava um horror.

― Eu queria ficar onde só Deus me visse. Ia conversar com ele.

A senhorita ofereceu a mão para que a garota se pusesse sentada. Depois, gargalhou. A loirinha não conseguiu ver graça.

― Acho que você pode falar com Deus de qualquer lugar ― a mulher acariciou o cabelo de sua antiga aluna, com um sorriso simplório. ― E também penso que, ao invés de fazer essas loucuras, tem que vir falar comigo. Sinto que está distante desde aquele dia... não é?

Aquele dia... o choro.

― Alguém te fez chorar, senhorita Tames? Naquele dia?

A mulher meneou a cabeça positivamente, com o nó na garganta dando às caras.

― Vamos fazer o seguinte... ― a mais velha limpou a garganta e olhou a criança com atenção ― A partir de hoje, contaremos tudo uma para a outra. Sem mais segredos. Sem mais invenções descabidas...

― Sem mais fuminações, você quer dizer? ― a garota ergueu uma sobrancelha, com um sorriso sugestivo.

― Como queira descrever, mocinha. Combinado?

― Combinado!

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