Estou dizendo
Querida, por favor, tenha piedade de mim
Pegue leve com meu coração
Mesmo que não seja sua intenção me machucar
Você continua acabando comigo
Você poderia, por favor, ter piedade, piedade do meu coração?
Você poderia, por favor, ter piedade, piedade do meu coração?
Mercy – Shawn Mendes (Acoustic)
Sabrina não quis falar nada sobre o que aconteceu na casa dos meus pais. Nós dois sabemos qual era a intenção de jogar logo aquela conversa. Era para atingi-la. Mamãe me ligou e disse que meu pai queria falar comigo, achei, e talvez ela também, que fosse para se desculpar pelas coisas que tinha insinuado sobre Sabrina, mas não.
Me ofendeu ao dizer que eu não deveria tê-la aceito de volta, além de outros absurdos que me machucaram, por isso decido não comentar com minha esposa quando a porta do quarto se abre e ela entra, me encarando receosa.
— Era seu pai? — apenas balanço a cabeça em resposta. — Ele falou algo contra você?
Desvio o olhar.
— Não, ele só... queria conversar.
— Mesmo?
Passo a mão pelo rosto e balanço a cabeça em positivo. Meu celular apita com uma notificação e vejo a mensagem de Vitória. Com toda a situação, ela já não é mais apenas a amiga de Sabrina, acabamos nos tornando amigos também e descobri nela uma mulher muito sensata, engraçada e atenciosa. Na mensagem seguinte, me manda um meme que me faz rir um pouco.
— Quem é? — pergunta minha esposa.
Bloqueio novamente a tela e balanço a cabeça, reprimindo o sorriso.
— Ninguém. — Dou de ombros e vou entrando no banheiro quando lembro que não jantamos nada devido ao acontecido. — Você pede a janta enquanto tomo um banho.
Ela assente, mas faz uma careta de incomodo.
— Não estou com fome.
Prendo o ar porque sei que está assim pelo ocorrido. Sinto vergonha pelo que meus familiares fizeram e, por um segundo fugaz, de mim também. Mesmo assim sigo para o banheiro sem dizer nenhuma palavra de conforto e, debaixo do chuveiro, me questiono quando nos tornamos esse tipo de casal, com medo de falar um com o outro. Parecemos mais dois desconhecidos do que duas pessoas que se tornaram amigas, namoraram e decidiram que queria construir uma vida juntos e fazer planos em que o outro estivesse.
Não éramos assim e, por mais que me perguntasse o que havia acontecido conosco, eu sabia exatamente a resposta e ela me incomodava e me feria ainda. Não importava quantas vezes repassasse em minha mente toda a conversa que tivemos na casa de praia, o momento em que disse, sem hesitar, com certeza e o coração leve, que havia a perdoado. Então por que ainda a olho e não sai da minha cabeça que ela errou? Por que a julgo ainda que tenha a perdoado?
Saio do banho ainda mais confuso, ainda mais cheio de perguntas. Jantamos em total silêncio e deitamos na cama depois de limpar o pouco que sujamos na cozinha. Viro a cabeça para olhar para Sabrina, mas seu olhar foge do meu quando se vira de lado, ficando de costas para mim.
Meu coração se aperta de uma forma que me dói o corpo inteiro. Viro de lado, de frente para ela. A intenção é toca-la, meus dedos queimam implorando pelo toque em sua pele. Minha própria pele sente falta da sua. Escuto seu fungado muito baixo e discreto, abaixo a mão. Não faço ideia do que fazer, do que dizer, como conforta-la. Simplesmente não consigo.
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Doce Amargo
Short StoryDoce Amargo - Parte I Com mais de sete anos ao lado da mesma pessoa, é possível pensar que a conhece. Mas Cézar jamais imaginou que estava tão enganado quanto a isso. Não passava por sua cabeça que Sabrina, a mulher que aceitou construir um futuro a...
