Contidos pela pontada de raiva

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Somos problemas que querem ser resolvidos

Somos crianças que precisam ser amadas

Estávamos dispostos, viemos quando você chamou

Mas, cara, você nos enganou, e agora já deu

What About Us - P!nk


Acordo, mas não abro os olhos. Eu sei o que vou encontrar e não tenho certeza se é o que quero, porque vou ver e vou lembrar, vai me corroer.

Ainda assim, meus olhos se abrem ao soar do alarme indicando seis horas da manhã. O que vejo agora é o teto do quarto em que passei longos anos dormindo, na minha juventude, mas há anos não era usado. Meus pais já haviam reformado o cômodo depois que sai de casa, sei porque já vim outras vezes aqui. Para o jantar de noivado, para os feriados e as festas de fim de ano quando já estava casado, para procurar os conselhos da minha mãe ou do meu pai quando eu e minha mulher brigávamos.

Bufo irritado e sento na cama. Bato a mão no despertador para desliga-lo e releio o post-it que preguei nele há duas semanas e ignoro-o pela mesma quantidade de tempo.

"Divórcio - Ligar para o advogado"

Eu odeio esse lembrete. Odeio o porque de ter o colocado ai. Não, não preciso de um lembrete para isso, a ausência da mulher com quem fui casado por seis anos já me lembra todos os porquês, a falta do apartamento que mobilhamos juntos depois do nosso casamento me lembrava isso, a dor no meu peito pela traição da minha esposa me lembrava.

Tomo um banho rápido para não me atrasar e enquanto me arrumo, infelizmente a coisa toda volta a minha mente. Não que eu quisesse estar contando justamente a pior coisa que me aconteceu, mas... Já faz duas semanas desde que descobri tudo o que Sabrina andava fazendo, desde que sai de casa, desde que vim pedir acolhida na casa dos meus pais, desde que a merda do lembrete estava pregado no despertador. Duas semanas em que Sabrina me liga, manda mensagens, vem aqui e ao meu trabalho, todos os dias.

Quer dizer, não tenho certeza de que ela ainda liga e manda mensagens, troquei de número telefônico três dias depois porque já não aguentava mais ver seu nome no visor. Com minha recepcionista e o segurança do meu estúdio de fotografia estava a ordem de não permitir sua entrada sob nenhuma circunstancia e na casa dos meus pais há o pedido para que não a recebam enquanto eu estiver em casa.

O que ela pensa estar fazendo? Ela queria que eu simplesmente recebesse-a e pronto, a traição estava esquecida e nosso casamento estaria de volta ao normal? Não existe mais casamento, não quando não existe mais confiança entre nós, não é? Não há como. Sabrina agora é uma desconhecida para mim, já não sei há quanto tempo ela veste a mascara daquela mulher a quem pedi em casamento.

Penso agora em todas as vezes em que a ouvi falar que ia visitar Vitória, e tento adivinhar em quantas vezes foi honesta.

Saindo da casa dos meus pais antes mesmo que levantem, vou para o estúdio. Pego o material que preciso para passar o dia tirando fotos com uma turma que está completando metade do curso de administração. Essa é a pior parte do meu dia, porque me recordo de quando conheci Sabrina, como nos aproximamos.

Ainda assim simplesmente faço meu trabalho, dando tudo de mim, ajudando a turma no que precisa. Logo ao fim da tarde volto ao estúdio apenas para guardar parte do material, o restante levaria comigo para a sessão de fotos que terei com uma garota para seu álbum de debutante. É assim que venho passando meus dias desde aquela noite de merda, vou para a casa de meus pais apenas para dormir, trabalho o máximo de tempo que posso na tentativa de estar cansado o suficiente para não conseguir pensar nela e, logo em seguida a isso, reviver o momento em que li as mensagens daquele homem em seu celular.

Doce AmargoOnde histórias criam vida. Descubra agora