Após cerca de trinta minutos, todos nós já havíamos tomado banho. Voltamos a nos reunir na sala, agora em silêncio absoluto. As caixas estavam espalhadas pelo chão, como se nos observassem.
— Uma por vez — eu disse, respirando fundo. — Com calma.
Todas eram pretas, resistentes, mudava apenas o tamanho. Tinham trancas metálicas... mas nenhuma estava trancada.
Isso, por si só, já me deixou desconfortável.
Peguei a menor primeiro.
Assim que abri a tampa, meu estômago gelou.
Joias.
Muitas.
Anéis com pedras preciosas — diamantes, esmeraldas, safiras — colares pesados, brincos antigos, tudo organizado com um cuidado quase doentio. Nada parecia falso. Nada parecia comum.
— Isso... — comecei, mas a voz falhou.
— Isso vale uma fortuna — Jake completou, sério demais.
— Muito mais do que uma — murmurou Dan.
O silêncio caiu de novo.
Peguei a caixa grande em seguida. Dentro havia fotos antigas da família, algumas amareladas pelo tempo. O sorriso da mãe parecia forçado. O do pai... vazio. As crianças nos encaravam daquelas fotos como se soubessem que estávamos ali.
Abaixo das fotos, documentos.
Certidões. Registros. Papéis oficiais.
Foi então que algo me atingiu.
— A senha do cofre... — murmurei, sentindo um arrepio subir pela espinha.
Todos me olharam.
— Era a data de aniversário da menina que via espíritos.
Segurei a certidão de nascimento com força demais.
— Olívia Howard.
Ninguém disse nada.
Comentamos rapidamente sobre outros papéis, mas nada parecia realmente útil... até eu encontrar um caderninho escondido no fundo da caixa. Nele havia apenas um nome e um número de telefone.
— Vamos ligar — sugeriu Lily, já nervosa.
Ligamos.
Número inexistente.
Peguei uma das caixas médias.
Assim que abri, o impacto foi físico.
— Puta merda... — Dan soltou sem pensar.
Era dinheiro.
Muito dinheiro.
Notas perfeitamente organizadas, limpas, sem rasgos, sem manchas. Pareciam novas demais para algo que estava escondido há anos.
— Estamos ricos — Thomas disse, quase rindo, incrédulo.
— Não — respondi na hora, fechando a caixa com força. — Isso não é nosso.
— Mas também não é dos fantasmas, né? — Jessy rebateu. — Deve ter, no mínimo, uns oitocentos mil dólares aí.
— Depois decidimos o que fazer com isso — Jake interrompeu, tenso. — Cléo, continua.
Peguei a outra caixa média.
Vazia.
Um vazio que parecia proposital.
Engoli em seco e fui para as caixas que encontramos no quarto do andar de cima. Elas eram mais fundas, mais antigas.
Na primeira, brinquedos.
Bonecas sem olhos. Carrinhos quebrados. Ursos com a costura aberta.
Na segunda, mais brinquedos.
O clima já estava pesado demais quando abri a última caixa.
E então... vi a carta.
Meu coração parou.
Li em voz alta, mesmo sabendo que não devia:
— "Você não sabe o quanto estamos felizes por você estar de volta, querida. Esperamos anos para finalmente ver você novamente. Estávamos com saudades, pequena Olívia... ou Sn, se preferir. Te esperamos em seu quarto."
Assinado: Amigo.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
— Que porra é essa... — Thomas sussurrou. — A Kloe é a garota dos espíritos?
— Isso não faz sentido — Lily disse rápido demais. — Se fosse ela, ela teria contado. Isso... isso deve ser coisa da casa. Algum tipo de manipulação.
Eu não consegui responder.
No fundo da caixa havia apenas desenhos estranhos. Figuras tortas. Criaturas. Crianças cercadas por sombras.
Discutimos. Negamos. Forçamos explicações.
Decidimos acreditar que Kloe não era a garota.
Porque aceitar aquilo significava admitir que nossa amiga escondia algo muito maior do que imaginávamos.
Quando todos foram embora, já passava da uma da manhã.
Fui dormir com uma sensação horrível no peito.
Kloe pov
— Vocês são incrivelmente chatas — digo, dando mais um gole no whisky.
— Não, você que é — Hanna rebate, rindo.
— Eu tô cansada disso — Jheniffer corta o clima de repente.
— Cansada? — Hanna ergue a sobrancelha. — Aqui é perfeito. Bebidas, ninguém nos incomoda, saímos pra assustar gente... é o paraíso.
— Paraíso? — Jheniffer me encara. — Estamos presas. Invisíveis. Sozinhas. Isso não é vida.
Ela se vira totalmente para mim.
— E tudo isso é culpa sua.
O ar fica pesado.
— Culpa minha? — respondo, fria. — Eu não obriguei ninguém. Eu dei a ideia. Vocês vieram porque quiseram.
Dou o último gole e me levanto.
— E outra coisa... — digo, me aproximando. — Se você gritar comigo de novo, a próxima a desaparecer vai ser você.
O silêncio é absoluto.
— E você sabe muito bem que eu não faço ameaças vazias.
Pego minha bolsa e vou embora.
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I NEED YOU-duskwood
Fiksi PenggemarEm uma cidade pequena demais para guardar segredos, desaparecimentos começam a se acumular, amizades se rompem e verdades são distorcidas até não restar nada além de versões convenientes. Enquanto todos procuram por um culpado, uma mente fria observ...
