Atualizamos nossas Diretrizes de Conteúdo.
Consulte as diretrizes mais recentes para continuar compartilhando histórias com segurança.

Não precisa ser impossível

803 53 27
                                        

O barulho da quadra ainda ecoava mesmo depois que o treino começou de verdade. Tênis arrastando no chão, vozes altas, o som seco da bola sendo levantada, cortada, defendida... tudo tão vivo, tão cheio de energia. E eu... Eu estava ali, parada. Do lado de fora da linha. Como sempre.

Cruzei os braços sem perceber, o olhar preso em cada movimento. Eu acompanhava tudo. Cada erro, cada acerto, cada posição mal feita, cada oportunidade perdida... era automático. Meu corpo reagia antes mesmo de eu pensar, mas não me movia. Respirei fundo, desviando o olhar por um segundo... mas voltei quase na mesma hora.

Eu sinto falta, a frase veio sozinha. Mas logo depois... outra veio por cima, eu não posso. Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Meu olhar caiu pro chão por alguns segundos, e antes que eu pudesse evitar... eles vieram também. Meus pais. Um aperto subiu pela garganta tão rápido que eu precisei engolir na hora, desviando o olhar pra quadra como se aquilo fosse o suficiente pra esconder. Eu só... aprendi a fingir melhor. Passei a mão no braço, como se pudesse me puxar de volta pro presente, e funcionou.

O treino continuava, os meninos gritando, rindo, errando, tentando de novo... vivendo aquilo. E eu... Eu só assistia. Porque era o mais perto que eu conseguia chegar sem quebrar. O tempo passou sem que eu percebesse direito. Quando dei por mim, o ritmo já tinha diminuído, os movimentos mais pesados, as respirações mais altas.

- Boa! - A voz do meu tio ecoou pela quadra. - Encerramos por hoje!

Alguns caíram no chão na hora, outros só ficaram apoiados nos joelhos, tentando recuperar o fôlego. Eu soltei um suspiro baixo, me movendo automaticamente, como sempre fazia. Pegar bolas, organizar, manter tudo no lugar. Algo simples, Algo que não machucava. Kyoko apareceu ao meu lado, silenciosa como sempre, pegando algumas bolas sem dizer nada. Por alguns segundos, ficamos assim, só o som leve das bolas se chocando e dos nossos passos.

-Você parece gostar de estar aqui.

Pisquei, levemente surpresa.

- Parece? - respondi, pegando outra bola.

- Não sei, o jeito que você observa eles jogando.

- Eu gosto de ver eles jogando.

Não era mentira, mas também não era toda a verdade.

- Você entende muito bem. Nem eu que estou aqui há um tempo como assistente, não consigo entender. - Ela me observou de canto.

- Eu só observo, você sabe que tenho que contar os relatórios pro meu tio. - Falei dando um sorriso curto.

- Não é só isso.

- Bom, é o suficiente. - Desviei o olhar, fingindo prestar atenção na organização.

Ela não insistiu, e eu agradeci por isso. Terminamos de organizar em silêncio, mas não era desconfortável, era... leve. Quando percebi, já não tinha mais ninguém na quadra além de mim e do meu tio, que estava mais ao fundo, guardando as coisas. Peguei minha bolsa, jogando no ombro.

- Vamos? - ele perguntou, se aproximando.

Assenti com a cabeça. Saímos juntos, o som da quadra ficando pra trás, mas a sensação... não. Caminhamos em silêncio por um tempo. Eu não tinha uma boa relação com meu tio, nunca fomos próximos, na verdade... Já sim, mas isso foi há muito tempo.

Continuei andando. A casa já estava perto quando algo chamou minha atenção. Uma silhueta parada em frente ao portão, franzi o cenho forçando um pouco a vista. Mas não precisava, revirei os olhos. Quando chegamos mais perto, reconheci na hora.

Suspirei fundo.

- Sério?

Meu passo mudou automaticamente, pra mais firme, e mais direto.

𝕊𝕦𝕟 𝕆𝕗 𝕄𝕪 𝕃𝕚𝕗𝕖Histórias para pegar e não largar. Descubra agora