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Presos no quarto

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A roupa que usava era simples, exatamente como sempre gostei para jogar, uma regata preta justa ao corpo, um short esportivo preto com detalhes claros nas laterais, joelheiras brancas já bem ajustadas sobre os joelhos, manguitos pretos cobrindo meus antebraços, meias altas comprimindo a panturrilha e um tênis branco de vôlei que permanecera guardado durante muito tempo dentro do armário, limpo demais para alguém que dizia nunca mais voltar às quadras.

Meu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto, e algumas mechas escapavam ao redor do rosto por causa do vento que atravessava o corredor.

Senti meus dedos apertarem involuntariamente a mão que ainda segurava a minha. Em nenhum momento desde o corredor ele havia soltado minha mão. Nem quando eu diminuí o passo. Nem quando parei completamente diante da porta. Nem quando minha respiração começou a falhar aos poucos.

O aperto dele aumentou um pouco. Não forte o suficiente para machucar, só o bastante para dizer que eu não estava sozinha.

O reflexo do sol iluminava seus cabelos alaranjados, e por um instante me perguntei como alguém conseguia ser tão absurdamente calmo quando a pessoa ao lado claramente estava desmoronando por dentro.

- Está doendo, não está? - perguntou baixinho, sem tirar os olhos da quadra.

Engoli em seco. Nem precisei responder.

Respirou fundo antes de finalmente virar o rosto para mim. Seus olhos encontraram os meus com uma naturalidade que me desmontava sempre. Não havia pena ali. Apenas uma confiança tranquila que eu nunca entendia de onde vinha.

- Você não está fazendo nada errado, Hana.

A frase foi dita com tanta simplicidade que quase doeu mais do que qualquer discurso elaborado.

- Você não está traindo seu pai porque decidiu voltar a jogar. Não está esquecendo dele porque sorriu hoje. Não está desrespeitando a memória dele porque resolveu entrar naquela quadra.

Minha garganta apertou.

- Mas parece...

- Eu sei que parece. - Ele interrompeu com delicadeza. - Só que não é verdade.

Lá dentro o treinador chamava alguém para começar o aquecimento, uma bola bateu forte no chão e arrancou alguns gritos animados do restante do time. Tudo continuava acontecendo normalmente, enquanto eu permanecia parada diante daquela porta como se o tempo tivesse decidido esperar apenas por mim.

Hinata sorriu de novo.

- Posso te contar uma coisa?

Assenti devagar.

- Eu nunca conheci seu pai, mas ouvi muita gente falar dele. — Ele desviou o olhar, enquanto encarava os jogadores de outros times jogando. — Falavam da forma como ele fazia o time acreditar. Da maneira como levantava todo mundo quando alguém errava. Diziam que ele jogava sorrindo... e fazia quem estivesse ao redor sorrir também.

Senti meus olhos arderem.

- Acho que... Se um dia eu tiver a chance de ser lembrado por alguém... gostaria que fosse desse jeito também. Então... Eu acho que seu pai continua aqui.

Ele ergueu lentamente nossa mão entrelaçada e sorriu daquele jeito simples que só ele sabia fazer.

- Está aqui quando você sorri sem perceber. - Depois apontou para meus olhos. - Está aqui quando você olha para alguém querendo ajudar.

Seus dedos tocaram de leve a própria cabeça.

- Está no jeito que você pensa. - Depois apontou para meu peito. - Está no seu caráter.

𝕊𝕦𝕟 𝕆𝕗 𝕄𝕪 𝕃𝕚𝕗𝕖Histórias para pegar e não largar. Descubra agora