15. [intimidade]

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14177 palavras

[intimidade]
substantivo feminino

1. [relação muito próxima; amizade íntima; familiaridade.]

2. [tratamento um tanto atrevido e provocador]

3. [ambiente onde se tem privacidade, tranquilidade, aconchego.]


As noites em Seul não são mais as mesmas, os crimes aumentam a cada dia e parece que dar conta de tudo vira uma missão impossível, até mesmo os acontecimentos mais simples fogem do nosso controle. O desequilíbrio entre o que achamos que é a justiça e o que ditamos ser errado está em uma crescente absurda e notamos a cada chamado que é feito em nosso rádio.

Quando as sirenes brilham em meio ao céu escuro das madrugadas, ou no momento que enchem as ruas da cidade com o seu azul e branco, chamando a atenção de todos que passam e daqueles que permanecem em suas janelas, eu me sinto vigiado. Como se a esperança de um lugar melhor fosse depositada inteiramente em mim, aquele "eu confio em você", junto de todo aquele peso da confiança de cada um, no entanto, não posso carregar esse fardo.

O sentimento de inutilidade que se apossa do meu corpo em forma de frustração, me derruba e me desarma nos momentos mais inconvenientes, naqueles onde eu preciso de força e foco para ter controle da situação. Apesar de carregar um distintivo, eu ainda sou humano e mesmo com toda a minha carreira e o meu histórico de experiências, há momentos que o irrelevante se torna absurdo e lidar com algo pequeno parece impossível.

Dezembro é um mês bonito, independente da maior parte da Coréia e apesar de eu não ver o mês como algo religioso, ele tem a sua magia, a neve traz uma nostalgia inconfundível e todos sabem que quando o tapete branco cobre a cidade, é aquela época de confraternização. O aroma das comidas repletas de açúcar caramelizado e gengibre enchem as ruas e as praças, me sinto reconfortado com os aromas, as cores e até mesmo as músicas típicas dessa época. Há amor, empatia e solidariedade, os momentos são únicos e até eu que não costumo comemorar, gosto de passar a data em união, dezembro realmente já foi um mês de paz.

Não esse.

Confesso que ao ver a neve lavada de vermelho, sensações ruins tomaram meu corpo e minha mente, o que poderia soar estranho, pois já presenciei cenas piores do que aquela e não senti um terço da angústia que sentia, possivelmente houve a interferência do clima natalino como já citei.

Me senti em um filme, as luzes piscantes e todo aquele cheiro vindo do vapor que subia das barracas, o som de pessoas nas ruas e a neve sob os meus pés, as pegadas que ficavam quando eu andava e que conforme avançava, se tornavam vermelhas. Posso assumir que mesmo com o sentimento ruim, meu senso de justiça estava mais apurado do que qualquer outra coisa, talvez a raiva incubada esteja servindo para algo.

Não contei a ninguém, jamais falei sobre essa sombra que me segue e o sentimento de fracasso, do medo de falhar mais uma vez, assim como aconteceu há três anos. Ainda que não possua culpa total, tenho minha parcela e tento não cometer os mesmos pecados, é uma dívida pessoal e confesso que o beco onde esse caso está me enfiando, me deixa mais aflito do que eu gostaria.

Sei que casos demoram, sei que já levei anos para desvendar um e faz apenas cinco meses que assumi esse, mesmo assim, me sinto impotente e inútil. Talvez por estar na companhia dele mais uma vez, as minhas cobranças estejam maiores e os medos também. Embora todos esses sentimentos ruins, me sinto confiante quando estamos juntos, quando ele me acompanha em uma cena e me ajuda com as entrelinhas, mesmo havendo mudanças em nossas vidas, ainda sabemos como fazer. E eu sei que fazemos muito bem, sei que vamos conseguir resolver isso.

Roleta Russa | sopeHistórias para pegar e não largar. Descubra agora