Recém criados

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Publicado 28/01/2025

O vento cortava a noite fria do lado de fora da casa de Flora, mas dentro, o calor das cobertas e o aconchego do sofá faziam com que tudo parecesse distante. Eu e Leah estávamos deitadas, a escuridão lá fora não parecia importar. Ela estava deitada de lado, com a cabeça apoiada em meu peito, ouvindo o som da minha respiração e o suave batimento do meu coração. A cada toque leve de suas mãos, meu corpo respondia com uma sensação de prazer tranquilo, como se o mundo não existisse fora daquela bolha que havíamos criado juntas.

A luz suave da lâmpada de cabeceira iluminava o quarto com um tom dourado, e o calor que emanava de nós duas tornava o espaço ainda mais acolhedor. O aroma de Leah estava em todo o lugar, em cada fio de cabelo dela que me tocava a pele, em cada suspiro que ela dava. Eu me sentia segura, feliz e, de alguma forma, inteira.

"Você está tranquila, né?", Leah murmurou, sua voz suave e quente, quase abafada pela minha blusa.

"Sim, mas acho que o inverno está mais gelado do que o normal, mesmo dentro de casa", eu disse, sorrindo, enquanto passava a mão pelo cabelo dela.

Leah riu, mas foi um riso leve, carregado de um cansaço suave. Ela estava tão tranquila quanto eu, mas no fundo eu sabia que as coisas nunca ficavam calmas por muito tempo. Uma sensação de alerta, uma intuição que nunca me abandonava, começava a crescer dentro de mim, algo sutil, mas presente. E quando o telefone de Leah tocou, a paz se desfez.

Eu olhei para ela, um pouco surpresa, mas não falei nada. Leah pegou o celular com um suspiro, o rosto de quem já sabia o que estava por vir. Quando viu o nome de Seth na tela, seu semblante se fechou um pouco, e a tensão no ar ficou visível.

"É o Seth", ela disse, como se já estivesse esperando por isso. Ela hesitou por um momento antes de atender, colocando o celular no ouvido. "Seth, o que aconteceu?"

Eu podia ouvir um murmúrio abafado do outro lado da linha, a voz do amigo de Leah soando urgente. Seus olhos se estreitaram à medida que ele falava, e pude sentir uma tensão crescer entre nós. Não era o tipo de coisa que se resolve com palavras suaves. Algo estava errado.

"Entendido. Estamos indo", Leah disse, sua voz firme, mas preocupada. Ela desligou o celular e se sentou na cama, tirando as cobertas de cima de nós. Olhei para ela, preocupada.

"Leah, o que aconteceu?" minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, a apreensão se misturando ao temor.

"É... uma situação com os recém-criados", ela respondeu, tentando esconder o peso da notícia. "Precisamos ir agora. Seth e os outros estão enfrentando-os. Eu preciso ajudar."

Eu não queria que ela fosse. O medo começou a se espalhar pelo meu corpo, algo que eu não podia controlar. Mas eu sabia que Leah não poderia ficar de fora. Ela era uma transmorfa, e quando algo assim acontecia, ela tinha que estar lá.

"Leah, por favor, tenha cuidado", eu disse, tentando esconder a preocupação na minha voz, mas não consegui. Eu sabia que, mesmo com todas as habilidades dela, havia sempre o risco.

"Eu vou voltar para você, prometo", ela me garantiu, e, antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ela já estava saindo do quarto. Senti uma dor no peito ao vê-la partir, mas sabia que ela estava fazendo o que precisava fazer.

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O cenário era uma clareira na floresta, iluminada apenas pela lua cheia, que lançava sombras longas e profundas entre as árvores. Seth e Jacob estavam lá, já em forma de lobos, as posturas tensas enquanto observavam os recém-criados que se aproximavam. A batalha estava prestes a começar, e a tensão era palpável no ar frio da noite.

Leah, em forma de lobo, corria ao lado deles, a pelagem prateada brilhando sob a luz da lua. Seus instintos estavam afiados, e ela sabia exatamente o que fazer. Os recém-criados eram uma ameaça séria — vampiros que haviam sido transformados recentemente, com força e velocidade descomunais, mas sem o controle de um vampiro mais experiente. Isso os tornava imprevisíveis e perigosos.

A batalha começou com uma explosão de movimento. Leah avançou com rapidez, atacando um dos recém-criados com suas garras afiadas, derrubando-o no chão com um golpe certeiro. Mas ela sabia que havia mais pela frente. Seth estava ao seu lado, protegendo as costas dos outros, mas a luta era implacável. Os recém-criados estavam em todos os lados, atacando com ferocidade.

Jacob lutava contra um vampiro, seu corpo de lobo se movendo com agilidade, desferindo golpes rápidos. Mas em um momento de distração, o vampiro conseguiu agarrá-lo, lançando-o contra uma árvore com força brutal. O som de algo quebrando ecoou pela clareira. Jacob se levantou com dificuldade, mas a dor era evidente em seus olhos.

A batalha se intensificava. Leah se movia com precisão, mas a cada golpe, a cada vampiro derrubado, uma nova ameaça surgia. Ela estava focada, mas seu corpo começava a mostrar sinais de cansaço. O som da luta, os uivos e gritos, misturavam-se com o som do vento, criando uma cacofonia de caos.

Foi então que Victoria apareceu. Ela estava mais forte do que nunca, seus olhos fixos na luta com uma expressão de fúria. Leah a reconheceu imediatamente. Victoria havia sido uma das líderes dos vampiros que haviam causado tanto sofrimento no passado. Mas agora, ela estava em busca de vingança.

Victoria avançou rapidamente, derrubando um dos recém-criados que estava atacando Seth. Ela estava lá para ajudar, mas sua presença fez com que os outros vampiros se reagruassem. Em um movimento rápido, ela atacou Leah, acertando-a com uma violência inesperada. Leah foi lançada para longe, seu corpo batendo contra uma árvore.

O mundo parecia desacelerar quando vi aquilo de longe. Flora, onde você estava? Pensou Leah, enquanto suas forças diminuíam. Eu não queria que você me visse assim. Mas ela sabia que, apesar do medo, isso era apenas uma parte da guerra que ela estava vivendo. E a dor não importava agora. O que importava era a luta. Ela não podia se dar ao luxo de perder.

Flora estava em casa, sozinha, ainda consumida pela preocupação. O vento lá fora parecia sussurrar seus medos, e ela se sentia cada vez mais distante de Leah. A angústia aumentava a cada minuto que passava. O telefone dela não tocava. A sensação de impotência a dominava. A necessidade de estar lá, de saber que Leah estava bem, era insuportável.

E então, quando Flora não esperava mais, ouviu um som suave na porta. O coração dela saltou no peito. Ao abrir, viu Leah, sangrando e ofegante, sua expressão pálida. Ela estava machucada, mas o sorriso no rosto dela era quase um alívio para Flora. Leah mal conseguia ficar em pé, mas o olhar dela, aquele brilho intenso, fazia Flora esquecer tudo o que havia acontecido.

"Leah!", Flora exclamou, correndo até ela e a segurando, aliviada por vê-la de volta, mesmo machucada.

"Eu... eu consegui... voltar para você", Leah disse, com um sorriso cansado, mas sincero. Ela tocou o rosto de Flora suavemente, como se pedisse desculpas por tudo o que ela havia enfrentado. "Eu preciso te dizer uma coisa."

Flora olhou para ela, surpresa. "O que aconteceu? Você está bem?"

Leah a olhou profundamente nos olhos, como se o peso da luta ainda estivesse sobre ela. "Eu... quero que você seja minha. Eu quero que você seja minha namorada."

Flora não sabia como responder. O pedido veio de uma forma tão sincera, tão simples, que ela sentiu uma onda de emoções que não conseguia mais controlar. Ela se aproximou, tocando o rosto de Leah com carinho.

"Eu quero isso também", Flora disse, e quando seus lábios se encontraram novamente, tudo ao redor pareceu desaparecer, exceto elas duas.

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