Convites

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O dia seguinte foi uma luta para Flora. A dor do encontro com seus pais, com as palavras duras que haviam sido ditas, ainda estava muito fresca em sua mente. Ela não conseguia parar de reviver os momentos — a voz da mãe, fria e implacável, a expressão indiferente de seu pai, a sensação de não ser vista, de não ser aceita. Tudo parecia ter desmoronado, e ela ainda estava tentando recolher os pedaços de seu coração partido.

Na escola, Flora tentava se concentrar, mas sua mente vagava, perdida em pensamentos confusos. As aulas passavam, mas ela mal conseguia registrar o que estava sendo dito. O trauma do dia anterior parecia pesado, como uma sombra que a acompanhava, não importa onde fosse. Ela queria fugir daquela dor, mas, ao mesmo tempo, sabia que não poderia. Não agora. Não ainda.

Ao voltar para casa, Flora sentiu um vazio profundo ao entrar no apartamento vazio. Ela estava sozinha, como sempre, mas não havia mais aquele conforto que costumava encontrar no silêncio do lugar. O peso da solidão, que antes a acolhia, parecia agora sufocante. Ela estava cansada de se sentir assim, cansada de carregar aquele fardo emocional.

Mas, ao entrar na sala, algo a fez parar. Sobre a mesa de café, uma carta estava aberta, com a caligrafia de Alice. Ela hesitou por um momento, sentindo um frio na espinha, antes de pegar o papel. O convite.

*"Você está convidada para o casamento de Bella e Edward. Será no sábado, às 15h. Todos estão aguardando por você. Com carinho, Alice."*

Flora leu as palavras várias vezes, como se não pudesse acreditar no que estava vendo. O casamento de Bella. Ela sabia que era algo grande, algo importante, mas sua mente estava dividida. Por um lado, ela sentia um impulso de ir, de estar lá com Leah e com todos. Talvez fosse uma forma de esquecer, de se distrair da dor, de viver uma nova experiência, algo diferente. Mas, por outro, havia um receio, um medo que se enraizava profundamente em seu coração.

O que ela estava sentindo agora não era só sobre o casamento em si, mas sobre o lugar que ela ocupava na vida de todos ali. A lembrança do que seus pais disseram ainda estava viva em sua mente, e a ideia de ser aceita por aqueles que, de certa forma, sempre foram mais "diferentes" que ela, parecia distante. Será que eles veriam Flora do jeito que ela realmente era? Será que se sentiriam à vontade com ela?

Enquanto seus pensamentos se agitavam, o som de um carro estacionando na entrada a trouxe de volta à realidade. Ela olhou pela janela e viu Leah saindo do carro. O peso no peito, que parecia insuportável até agora, aliviou um pouco. Leah. Ela sempre estava ali, e, com ela, Flora sentia uma paz que não conseguia encontrar em mais ninguém.

Leah subiu até o apartamento, batendo na porta suavemente. Quando Flora abriu, Leah estava ali, com um sorriso caloroso, mas com os olhos cheios de preocupação. Ela percebeu de imediato a expressão cansada e ausente de Flora.

— Ei, como você está? — perguntou Leah, colocando as mãos nos bolsos do casaco, com uma leve tensão na postura.

Flora suspirou, tentando esconder a dor ainda presente.

— Estou... sobrevivendo. — Ela deu um sorriso forçado, que não enganou Leah nem por um segundo.

Leah a observou por um momento, sentindo a tristeza evidente em sua expressão. Ela se aproximou, tocando o ombro de Flora de forma suave, como quem busca fazer um carinho sem invadir o espaço da outra.

— Se você quiser conversar, estou aqui. — Leah fez uma pausa. — Ou se preferir só ficar em silêncio... também está tudo bem.

Flora olhou para a carta que ainda estava em suas mãos, o convite do casamento de Bella. Ela o entregou para Leah, com um gesto leve, quase distraído.

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