Flora estava em casa, sozinha, como era costume. A sala estava quieta, quase vazio, exceto pela luz suave que entrava pela janela e iluminava o espaço de maneira aconchegante. Ela estava sentada no sofá, mexendo distraidamente no celular, pensando em tudo o que acontecera nas últimas semanas. O encontro com a tribo, o pedido de Leah para explorar aquele mistério mais profundo... a conexão que crescia entre elas. Tudo isso parecia distante quando ela estava sozinha, mas ao mesmo tempo reconfortante. Ela sabia que a jornada estava só começando.
Foi então que o toque do interfone fez seu coração dar um salto. Flora franziu a testa, levantando-se rapidamente. Não esperava ninguém, e não podia imaginar quem poderia ser.
— Quem é? — ela perguntou, hesitante, enquanto olhava pela janela para tentar ver algo. A rua estava calma, mas o toque do interfone ainda a fazia sentir um pressentimento estranho.
— Filho! Abra a porta! — a voz que veio do outro lado do interfone foi ríspida e autoritária. A voz familiar, mas que ela não ouvia há anos.
Flora sentiu um frio no estômago. Ela reconheceu a voz imediatamente: era sua mãe, e o tom de voz, duro e inflexível, fez seu coração disparar. Ela hesitou por um segundo, a pressão no peito aumentando. Será que seria uma visita de reconciliação? Mas, no fundo, sabia que isso seria impossível. Sua relação com os pais nunca foi fácil, e sua transição os afastara ainda mais. Eles nunca aceitaram Flora como ela realmente era.
Ela abriu a porta, e os viu. Seus pais estavam ali, como se o tempo não tivesse passado. O olhar de sua mãe era impassível, e seu pai estava com uma expressão endurecida, quase desdenhosa. Flora tentou esconder a dor que sentia, mas a simples presença deles a fez se sentir pequena, como se estivesse de volta àqueles tempos em que não se sentia digna de amor ou aceitação.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Flora perguntou, tentando manter a voz firme, mas sua garganta estava apertada. Ela não queria ser rude, mas não sabia como lidar com aquela situação.
Seu pai, que estava mais magro e pálido do que Flora se lembrava, olhou para ela com uma expressão severa. Ele parecia frágil, mas não em um sentido gentil. Havia algo de arrogante no jeito que ele a olhava, como se a presença dele fosse um favor que Flora deveria aceitar.
— Você precisa nos ajudar, querido— ele falou com uma voz rouca. — Eu estou morrendo. O médico disse que um transplante de fígado é a única chance de sobrevivência. E a sua mãe e eu... decidimos que você é o único que pode salvar a minha vida.
Flora ficou sem palavras. O que ele estava dizendo parecia surreal, como uma piada cruel que ela não queria acreditar. A dor que sentiu no peito parecia quase física. A ideia de ser tratada como se fosse apenas uma fonte de utilidade, de como se sua vida não tivesse mais valor a não ser como um órgão de doação, a fez quase perder o ar.
— O quê? — foi tudo o que conseguiu dizer, a voz embargada pela surpresa e pela dor.
Sua mãe, que ficava quieta ao lado do pai, finalmente falou. Sua expressão era a mesma de sempre: dura, sem simpatia, sem amor.
— Você tem que fazer isso. Você é nosso filho, não pode nos abandonar. Não se faça de difícil, rapaz. Não estamos pedindo muito, só que salve a vida do seu pai.
A palavra "diferente" passou pela mente de Flora como uma lâmina afiada. Eles nunca tinham entendido quem ela era, nunca a aceitaram como ela se sentia por dentro. Em todos os momentos de sua vida, ela tinha sido tratada como algo errado, como se sua identidade fosse algo a ser consertado ou ignorado. Agora, de repente, estavam à sua porta, esperando que ela se sacrificasse, como se sua existência fosse apenas um meio para um fim.
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Flora.
FanficOnde Flora muda-se de estado após ter seu segredo revelado ou Onde Leah tem um imprinting?
