Última noite- Part 1

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O quarto se encolhia sobre mim — devagar, como se estivesse vivo e faminto — e era como se as paredes estivessem me amassando, me quebrando aos poucos, lembrando, em cada centímetro, que eu já não era mais bem-vinda naquela casa.
A atmosfera parecia densa, parada, quase fria. Aquele tipo de silêncio que aperta a garganta e arranha por dentro.

Todos os contatos haviam se encerrado.
Dona Celeste aparecera na manhã anterior trazendo minhas notas e o atestado escolar. Não ousou me olhar. Ela sempre odiou despedidas, e naquele instante eu entendi o peso desse ódio: é mais fácil virar o rosto do que aceitar que alguém está partindo.

Aos poucos, fui me ajeitando.
Arrumei as poucas coisas que ainda me pertenciam em uma pequena mala. Cada movimento parecia mais lento do que o normal, como se minhas mãos estivessem tentando atrasar o inevitável. E, enquanto eu fazia isso, uma voz gritava dentro de mim

“Eu irei embora sem olhar para trás.”

Eu queria tanto que isso fosse verdade.
Queria ter essa força. Essa frieza. Essa coragem.
Mas eu não nasci com um coração ruim — e, se algum dia eu me tornasse alguém assim, meus pais me odiariam. Sentir isso, admitir isso, fez o clima do quarto mudar de direção: da tensão para algo mais profundo, mais dolorido, mais verdadeiro.
A minha nona já não tomava mais seu sol da manhã na varanda, em sua velha cadeira de balanço. Parecia que havia se tornado inimiga dos raios de luz que antes acariciavam seu rosto envelhecido; agora vivia reclusa em seu quarto, sempre enrolada, como se estivesse tomada por um frio e um cansaço eternos.

— Nono, o que o senhor está fazendo? — pergunto ao vê-lo encostado na pia, como se houvesse esquecido o mundo.

Ele permanece em um longo silêncio, observando a água da torneira molhar delicadamente suas mãos enrugadas.

— Eu só estou decidindo qual prato vou fazer pra você comer. Esse é o nosso último dia — sua voz treme.

Ele faz uma leve pausa.

— Já decidi. Vou fazer o prato preferido do seu pai. Será uma boa lembrança — diz. Seu rosto suaviza, mas seus olhos continuam tristes.

— Tá tudo bem, nono. Eu nunca esqueceria de vocês — digo, sentindo o coração apertar.

— Você pode me ajudar a cozinhar… assim como seu pai fazia.

Ele não me entrega a faca de imediato.
Apenas olha para o metal parado na pia, como se aquilo fosse a coisa mais difícil de largar naquele dia.

— Por favor — diz por fim, mas sua voz está distante, como se tivesse ficado presa em algum lugar entre a pia e a memória.

Eu pego a batata.

O som da água correndo parece mais alto do que deveria.
Ou talvez seja só o silêncio enchendo tudo.

— Nono… — chamo baixinho.

Ele continua mexendo nas panelas, mas não mexe de verdade. Não há fogo aceso. Não há cheiro de tempero.
Só a ilusão de que ele está ocupado.

— Por que o senhor parou? — pergunto.
Ele respira fundo, apoiando as duas mãos na beirada da pia.

Os ombros afundam um pouco, como se carregassem um peso que finalmente desistiu de se esconder.

— Porque não sei o que eu tô fazendo — diz, num fio de voz.
O sotaque aparece como um sussurro arrastado.

— Nem com o almoço… nem com você.
Viro lentamente o rosto para ele.

O nono sempre foi um homem firme, daqueles que seguram o mundo com a mão grande e a palavra curta.
Mas agora ele parece meio partido.
Ele passa a mão na velha boina cinza — um gesto automático, nervoso.

Eu Sou SoLOnde histórias criam vida. Descubra agora